Rui Werneck de Capistrano

teatro

1. Liberdade
Prisão. Carcereiro abrindo a porta. Prisioneiro barbudo se despede do amigo de cela. Música. O prisioneiro sai da cela. Olha para os lados, respira fundo, abre os braços para a liberdade. Ouve-se uma explosão violenta, luzes piscam, fumaça. Prisioneiro cai morto. Silêncio. Sobe vinheta musical. Voz em off (de telejornal) sem afetação: — Dentro de instantes… Rússia bombardeia por engano uma cidade… Dez mortos! (Luz apaga)

2. Xixi
Uma estátua-viva no palco. Luz azul sobre ela. Música suave. Ela fica imóvel por 45 segundos. Entra um ator-cachorro, faz xixi no pedestal e sai. (Luz apaga)

3. Especialistas
Uma atriz (menina) aflita. Tem um objeto nas mãos. Ela faz mímica de bater numa porta. Fala: — Pai! Pai! Acorda! Pai… Roubaram o carro velho do teu toca-fitas novinho! (Luz apaga)

4. Cancan
Uma estátua-viva no palco. Luz azul. Alguém coloca uma moeda no pires. Ela faz mímica de agradecimento. Congela. Alguém coloca um punhado de moedas. Ela começa a dançar freneticamente o cancã. (Luz apaga)

5. Mercad’ouro

São dois atores, de terno e gravata. Um entra por um lado com um estandarte onde está escrito: Compro Ouro. Outro ator entra por outro lado com um estandarte onde está escrito: Vendo Ouro. Os dois se cruzam no meio do caminho, mal se olham, negociam e vão cada um para um lado. A cena se repete mais rápida, os dois correndo. Repete, repete. Os ternos de ambos vão se rasgando, sujando. Cada vez menos se olham ao se cruzarem. Se batem, se zangam. Até que eles entram, como se estivessem correndo em câmara lenta, sentam, perto um do outro, bem rotos e sujos. O estandarte de cada um está sem nada escrito do lado que se vê. O da esquerda vira o estandarte para a platéia. Lê-se: …O Fim.. O outro vira o estandarte, lê-se: Mi Fo… (Luz apaga)

6. Pobreza

U
ma estátua-viva no palco. Luz azul. Ela fica parada por 50 segundos. Ao final, desce do pedestal, brava, e fala para a platéia: — Ô, pobreza! (Luz apaga)

7. A Vida é Sonho
Um ator num quarto. Ele está tirando o pijama e colocando calça, camisa, meias, sapatos. Ao terminar, toca o despertador. Ele desliga, se deita, apaga a luz e dorme.

8. Mosca
Estátua-viva no palco. Luz azul. Ouve-se zumbido de mosca, como se ela voasse em volta da estátua. A mosca pousa e logo voa. Volteia e volteia. Irritante. Até que a estátua-viva faz com a boca como se fosse um sapo e pega a mosca em pleno ar. Congela. (Luz apaga)

9. Homem-Bomba

Uma porta de banheiro. Uma porta de bar, com placa. Homem-bomba, de capa preta e touca que só deixa ver os olhos. Por baixo da capa, volumes suspeitos se delineiam. Ele entra no palco e vai abrir a porta do bar. Sente dor na barriga, olha para a porta do banheiro, corre para lá. Entra, fecha. Ouvem-se várias explosões. Silêncio. Ator sai do banheiro aliviado. Capa vestida normalmente, sem volumes por baixo. (Luz apaga)

10. Strip Tease
Uma estátua-viva no palco. Luz azul. Alguém põe uma moedinha no pires. Ela faz mímica agradecendo. Congela. Alguém põe um bolo de dinheiro. Música. Ela faz um strip-tease sensual. (Luz apaga)

11. Teatro Mudo
Um ator, no palco, de costas para o público, examina (mímica) uma vitrina (imaginária). Entra uma vendedora e vai até ele. Ela bate de leve no ombro do ator e mostra sua/dela camiseta, onde se lê bem grande: Posso ajudar? O ator se vira para o público e mostra a camiseta onde está escrito bem grande: Não! (Luz apaga)

12. Perdão
Entram no palco cinco soldados marchando, com carabinas. Comandante os faz ficar em posição de pelotão de fuzilamento — dois agachados e três em pé, atrás — apontando para a platéia. Comandante (grita, com tambores rufando junto): — Preparar, apontar!… Entra um soldado (grita): Parem!! (Silêncio. O soldado cochicha no ouvido do comandante. Em seguida, este se vira para a platéia): — Vocês foram perdoados por deixarem a televisão e virem ao teatro! (Luz apaga)

RUI-19

Rui Werneck de Capistrano é autor de Nem bobo Nem nada, romancélere de 150 capítulos.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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