Altorretrato

Esta história se passa num tempo muito, muito antigo, lá na Grécia. Mas podia ser hoje — aqui — como você vai ver.Montaram um reality show pra criar o rei-filósofo. Escolheram a dedo vinte greguinhos, deram as coordenadas e os isolaram do mundo. O apresentador era Sócrates e a patrocinadora exclusiva era a Academia. Como o próprio nome — rei-filósofo — indica, o Big Brother deles não tinha mulheres. O vencedor iria ser o supremo mandante da República.

A parada era dura. Os participantes tinham apenas 14 ou 15 anos e, pra começar, recebiam educação elementar de música, poesia, matemática básica e ginástica. Dos vinte, só seis passaram pra outra fase. Dentre eles estava nosso herói: Jonathopoulopadópodis.

Os seis se mostraram excepcionalmente virtuosos, inteligentes, sagazes. A próxima fase era de três anos de serviço militar. Treinamento duríssimo que podou mais três participantes. Sem choro nem vela. Jonas (abreviei por motivos óbvios) passou no teste. Aprendeu a acertar uma mosca com bodoque a trinta metros e vestia muito bem aquela armadura com saiote. Já tinha físico impressionante, sem anabolizantes, e sabia resolver um problema de lógica (que nem tinha sido inventada ainda) mais ou menos assim: Todo xesnarque é boljião. Todo boljião é frabique. Logo, todo xesnarque é…

A terceira fase consistia em dez anos de estudos avançados de ciências — geometria, aritmética, astronomia e harmonia. Moleza, né? Jonas que o diga. Deu tudo de si e não foi pro paredão. Só ficaram ele e outro de alta qualidade. Agora era tudo ou nada. Teriam pela frente nada menos que cinco anos de treinamento em ‘dialética’ — método filosófico que partia de hipóteses contrárias, passava por atritos entre elas e chegava a uma tese mais avançada. Essa fase foi imitada mais tarde em outro reality show de Karl Marx — que tentou botar a sociedade de classes contra ela mesma. Esse Big Brother foi cancelado porque mais sessenta milhões de participantes foram eliminados de uma vez só na União Soviética. Voltemos ao nosso show. Os dois candidatos, já adultos, se pegaram de sair faísca. Ao final dos dez anos, com trinta e cinco anos de vida, sozinho na casa, Jonas pensou que estava tudo terminado. Iam abrir as portas da fama e do sucesso pra ele. Os parentes estariam lá fora vestindo camisetas estampadas com seu nome, choveriam vinhos finos e tapinhas nas costas. Ledo engano.

Sócrates, depois de enrolar bastante pra conquistar mais votos pagos pelo telefone, anunciou que Jonas teria apenas mais quinze anos de rigoroso treinamento prático em política e administração. Jonas desmaiou, foi socorrido pelo Samu, mas não desistiu. Se desistisse, ganharia um cargo vitalício no primeiro escalão. Nosso herói não se curvou.

Sócrates anunciou que um rei-filósofo finalmente seria conhecido. Esse sim teria condições plenas de governar a República. Um perfeito filósofo, um real administrador, um espírito altíssimo, um equilibrado condutor de homens, um semideus!

Enquanto Sócrates endeusava Jonas, o tempo passava. Quando finalmente abriram as portas da casa, ele saiu de lá com cinquenta anos nas costas e soaram as trombetas: Tó-tó-tó-róóóóóóóótótó! (…)

O epílogo foi inesperado. Com toda aquela bagagem de conhecimentos, Jonas se comportou muito aquém das elevadas expectativas. Ele ganhou um carro zero, posou pelado numa revista sensacionalista, foi jurado em programa de calouros de música, apareceu num night club em trajes sumários, fez um filme com Woody Allen, gravou um cedê com músicas gospell, teve um caso rápido com a Amy Winehouse, caiu do alto de um carro alegórico na Sapucaí e assinou contrato exclusivo com uma rede de televisão pra angariar fundos pras crianças carentes do mundo inteiro. Do mundo inteiro — frise-se. Tuitava o dia inteiro, colocou fotos no Facebook e criou a comunidade Lógica é a mãe! no Orkut. Como governante, colocou todos os parentes nos altos cargos e abriu contas secretas na Suíça, nas Ilhas Caimã e no Brasil.

A patrocinadora — Academia — faliu, Sócrates tomou cicuta, a República foi batizada de Utopia Desvairada. Aguarde o próximo Big Brother: Confinados no Estádio de Futebol. Duas torcidas de times gigantes se defrontando durante três semanas dentro do Maracanã, enquanto os jogadores dos times assistem lá do gramado. E votam nos que devem sair no carro do IML.

Rui Werneck de Capistrano é autor de Nem bobo Nem Nada,
romancélere de 150 capítulos.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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