Rui Werneck de Capistrano

Eles estão sempre discutindo e decidindo a minha vida — a portas fechadas, na mesa de um café, na rodada de cerveja, no escuro do quarto. Não consigo acompanhar as andanças desses que discutem e decidem minha vida. Às vezes é pouca coisa — se ele mudasse o penteado… Se parasse de usar roupas de jovens… Se fosse consultar uma sortista… A essas coisas até que não dou muita importância — e isso também é motivo de discussão entre eles: se ele desse mais importância às pequenas coisas desse tipo… Muitas vezes nem fico sabendo o que foi discutido e decidido. Só colho olhares atravessados, sorrisos forçados, gestos dissimulados e indiferença. A massacrante indiferença! E sinais — sim, sinais! Eles fazem questão de me dizer você não prestou atenção aos sinais que enviamos. Sinais — um dia sem palavras, um trancar de porta, a falta de convite para a festa, a roupa íntima nova, a demora para atender ao telefonema. Benditos e silenciosos sinais! O ar fica pesado e frio. Quando o assunto é mais sério, envolve decisões drásticas e exige imediata tomada de decisão — e ação — me chamam — sem palavras, só com gestos — a uma sala preparada para o momento. Até jarra de água e copos estão à espera. Nem precisariam falar nada, dar ordens ou fazer a acusação final. O aparato já me faz ver que fui condenado e terei de cumprir a pena. Pode ser demissão, rebaixamento de cargo, fim de uma relação amorosa ou cessação de algum benefício por eles concedido anteriormente. Já conheço o teor da peroração — é sempre para o meu bem — os desejos explícitos — boa sorte, tudo vai se ajeitar. Fique bem! Nem as palavras eles conseguem mudar.

E nem precisariam — seria muito esforço para o mesmo final. Decoraram tão bem as expressões que — acreditam — com elas obtêm expressivo resultado em qualquer situação. Faz parte da estratégia deles serem sempre iguais — surte efeito, alivia a consciência. Tinha que ser assim — eis o fim. E sabem que isso vai me fazer ferver por dentro, sem ter como reagir. O sangue que some do rosto, os olhos que se perdem no vazio, o frio que se instala no estômago, as pernas que fraquejam. Talvez riam disso depois. A única questão que nunca abordam é quanto ao andamento das suas próprias vidas depois do que fazem com a minha vida. Parecem soberanos quanto a isso. Têm olhos firmes no futuro, objetivos sólidos e vontade férrea. Nunca tentei argumentar a esse respeito. Aferrei-me a um antigo preceito — tão antigo como o próprio mundo — e me dou por feliz. Hesíodo disse e está dito — os deuses são caprichosos. Ponto final.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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