64 – Vale a pena ver de novo

Por mais que tenha cantado em verso e prosa aqui sobre My Beautiful Dark Twisted Fantasy de Kanye West, por mais que adore a série de Blueprints de Jay Z, tentei me livrar de todas as maneiras dos ingressos que tinha na mão para assisti-los na tour de Watch The Throne. Estava cansado, não queria ouvir rap, fazia um frio polar lá fora, tinha uma dúzia de motivos bobos pra cair fora dessa. Nenhum me venceu e parti para o show mais importante da temporada em Nova York. O mais importante, se você considerar que um protagonista  arrecadou fabulosos 500 milhões nos últimos anos com sua música, e que o outro emplacou seus últimos 4 discos em primeiro lugar nas paradas e é considerado um dos 10 homens mais influentes da música popular americana atual (na verdade metade da plateia tenta se vestir como ele).

Ególatras e talentosos, lapidaram jóias a partir da  brutalidade do poder, da força da grana, mas também da história de suas lutas pessoais e, revelaram, com extrema delicadeza, influências finas (Nina Simone, Gil Scott Heron, Maya Angelou). Polêmicos, visitam, com seus carrões e jóias, Occuppy Wall Street, e pra piorar, vendem camisas que lembram o nome do movimento (ocupem as ruas) e não doam nada para esse. Já invadiram palcos, esfaquearam produtores, venderam crack nas ruas de Bedford-Stuyvesant no Brooklyn e Trenton em New Jersey. Disse o que acho sobre My Beautiful Dark Twisted Fantasy: um depoimento perturbado de um artista fora do comum, e consciente disso, no auge e nas garras da fama.  Runaway é linda e soa Stevie Wonder em Music of My Mind.

É o show da temporada porque, para boa parte dos americanos, Kanye e Jay Z são os artistas mais interessantes do cosmo musical desde o dia 11 de setembro de 2001, quando lançaram The Blueprint. Aspiram suas vidas, compram suas modas, refletem suas atitudes. Modelos caras e playboys brancos se infiltram na festa e eu, branquelo, brasileiro, me sentindo um húngaro no carnaval do Rio,  percebo o machismo desenfreado dos vídeos dos artistas do rap americano. Eu não queria vir para esse show. Mesmo sabendo que, apesar do que disse, por trás de tudo isso, existe um mundo todo explorado por minhas paixões (Achei por aqui um livro lindo, recentemente lançado, com as capas clássicas da Studio One). Reproduzo um parágrafo que escrevi quando falei, por aqui, sobre Kanye West:

O dancehall jamaicano dos anos 90 foi influenciado pelos gangsta rappers.  O conteúdo lírico do dancehall era quase sempre violento e incentivava a tomada de poder por facções criminosas de Kingston. Era uma música essencialmente acompanhada de discursos poéticos e beats eletrônicos, assim como o ragamuffin, música responsável pelo renascimento da cultura dos anos 60 conhecida como Rude Boy, de jovens criminosos e gangues da Jamaica. Durante o final dos anos 70, uma segunda onda de Ska, nascida na periferia das cidades inglesas, produzida pelo selo 2 Tone (The Specials e Madness), ressucitou o termo Rude Boys and Girls. O Ska jamaicano influenciou definitivamente o mod, o punk rock Britânico e o pós punk. Mais tarde se tornou a música escolhida pela cultura skinhead e ironicamente pelo poder branco europeu. Originalmente nascido na década de 50 na Jamaica, o Ska é o precursor do Reggae e do Rocksteady, música adotada pelos Rude Boys (Ouça os lindos discos de Alton e Hortense Ellis) e é produto direto da música do Caribe e da África e do jazz e R&B americanos. Você percerbe onde a cobra morde o próprio rabo? Artistas americanos das margens do Mississippi influenciaram a música jamaicana que, indiretamente, influenciou no desenvolvimento do Rap e da cultura da música eletrônica. Como fruto dessa árvore enraizada: Jay Z e Kanye West. David Shields conta que “naqueles anos 50, a música americana era imensamente popular na Jamaica. A cultura musical daquele país era influenciada pelos DJs tocando em festas públicas. Os DJs ganhavam cada vez mais reputação pelos distintos tipos de discos que cada um tocava. Kanye flerta com a música eletrônica também que, na cena do Hacienda em Manchester, era fortemente influenciada pelo dub jamaicano, criado pelo gênio de Lee Scratch Perry. O reggae também foi diretamente influenciado pela soul music Americana combinado a elementos musicais mais tradicionais da cultura do país. Nas festas públicas, com Sound Systems móveis, King Tubby destacava o baixo das faixas gravadas provocando uma retirada repentina dos outros instrumentos e dos vocais. Faziam isso usando equipamentos eletrônicos rudimentares e abrindo espaço para os toastings, ato de falar cantando. No início dos anos 70, alguns DJs jamaicanos levaram a prática para as ruas de Nova Iorque, onde se desenvolveu o primeiro capítulo do Rap.

Quanto ao show (ótimo), fiz amizades com meu vizinho da esquerda, que trazia a filha, pela primeira vez, para o show de seu maior ídolo: Jay Z, e com meu vizinho da direita, branco, com roupas e boné de rapper negro, cantando mais alto que o sistema de som perfeito. Adorei o show, de duas horas e meia, cantei refrões e sacudi as mãos, porque vi ao vivo o que não vejo nos videos dos singles: humor, carisma e soul music. Nos vídeos tudo parece desagradavelmente sério, e se for sério, não quero ver aqueles caras maus, com jóias penduradas, no meio de garotas legais, lambuzadas de óleo, dançando de biquini em iates. Gotta Have It e, é claro, 99 Problems foram especialmente bacanas. Saí com a sensação de ter entendido aquela lingua, ter sido conquistado por aquele ritmo e, pior pra mim, de querer mais. Mas por que é da voz de Otis Redding cantando Try a Little Tenderness que eu não me esqueço?

Felipe Hirsch (O Globo)

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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