A babá que não podia beijar

Encarava aquela bochecha gordinha e corada e seus lábios chegavam a fazer um biquinho

A babá podia passar a noite sem dormir, cuidando do bebê com febre, e podia passar a tarde sem comer, cortando frutinhas e batendo legumes. Mas não podia beijar o neném.

Ela podia ninar a criança de 11 quilos em seus braços por duas horas, de pé, e sentir uma dor aguda que ia do meio da bunda até o meio das costas. Podia lavar calças com fezes secas e blusas com manchas de manga e casaquinhos com cheiro de iogurte azedo. Mas não podia beijar o pequeno.

A babá podia dormir longe da sua filha, do seu marido, da sua cama, do seu banheiro. Ela não podia usar o celular nem ligar a TV nem usar o lavabo do corredor. E tinham deixado bem claro: não era para ela ficar beijando o neném.

A tal funcionária foi vista colocando o menino de dois anos no escorregador mais de 70 vezes. Porque ele pedia e ria e pedia mais uma vez. E eles se amam, e dane-se, porque ela faz tudo o que ele pede. Suas costas doíam tanto que o estômago, por reflexo, começou a doer também. A gaveta de remédios estava trancada.

A patroa achou por bem, agora que tinha uma empregada em casa, trancar muitos compartimentos. E colocou câmeras em todos os ambientes. Sumiram alguns panos de prato e um pouco de granola. Talvez nem tivessem sumido, mas vai saber. Contudo, se a criada quisesse um Dorflex, bastava mostrar que de fato estava morrendo e pedir com muita educação, falando baixo, solicitando permissão. E, só para reforçar: era importante que não beijasse o filho dos outros.

babá limpava a bundinha do bebê, escovava os dentinhos do bebê, lavava o pintinho do bebê, dava banho em todas as dobrinhas do bebê. Mas não podia beijá-lo. Eles se amavam. O neném, quando ficava triste, esticava os bracinhos somente para a babá. Ele a amava tanto que acordava no meio da noite para abraçá-la. E ambos estavam desesperados por um beijo. O bebê chegava a exibir sua testinha linda para a boca da babá. Mas ela não podia. A mulher encarava aquela bochecha gordinha e corada e seus lábios chegavam a fazer um biquinho. Ela precisava beijar a criança mais do que precisava se demitir e se livrar da patroa que havia proibido o consumo de água mineral e leite tipo A pelos funcionários.

babá então decidiu que no parquinho iria beijar o bebê. Lá não havia câmeras. E ela podia fingir que estava cheirando a cabeça dele. Ela podia fingir que o estava protegendo do vento. Ela podia se esconder em uma casinha de bonecas e beijá-lo. Talvez, para as pessoas infelizes, fosse estranho uma pele tão escura se aproximando de outra tão branquinha. Mas, para a babá e o bebê, aquilo era a natureza em sua expressão mais óbvia, corriqueira e necessária.

Então, na última quarta-feira, às 16h45, a babá colou seus lábios na bochecha esquerda do bebê. E fez um smaaaack barulhento. E o bebê fechou os olhinhos de alegria e pediu de novo e de novo. E ela, porque já tinha sido ousada mesmo, beijou mais dez vezes seguidas, fazendo algumas coceguinhas. A vizinha, amiga da patroa, que também tinha proibido a empregada de beijar seus filhos, estava no parquinho bem nessa hora e contou tudo para a outra, que mandou a babá embora.

Agora, a ex-babá beija sua filha o dia todo e sofre de saudades do bebê que só pôde beijar uma única vez (ou melhor, dez vezes de uma única vez). E o bebê, que agora passa de mão em mão até que o teste acabe e uma nova babá seja contratada e instruída a não o beijar, nunca mais vai se lembrar daquele rosto, mas vai se lembrar para sempre de como é ser amado.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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