À espera do novo pacto

Com os neofascistas e os neo-stalinistas na área, é fatal que os extremos se encontrem

Já chamou alguém de fascista hoje? Se não, não perca seu tempo. Não por falta de fascistas na praça, mas pelo excesso. Nem no Estado Novo de Getulio Vargas, tantos no Brasil fizeram jus a esta que, até há pouco, era a pior ofensa que se podia fazer a alguém. Talvez por isto, por serem muitos agora os que se identificam com o credo, ser chamado de fascista deixou de ofender. O próprio Jair Bolsonaro, cujas teoria e prática —da morte que promove no atacado aos perdigotos que despeja no varejo— se inspiram em Mussolini, já foi tachado de fascista umas mil vezes. E nunca se ofendeu. Claro —por que se ofenderia?

A prova é que, coerentes, o governo e seus fâmulos no Judiciário tentam incriminar os antifascistas, por eles se oporem aos racistas, negacionistas, xenófobos, biocidas, propagadores de fake news e outros praticantes de disciplinas, estas, sim, criminosas. Ao persegui-los, o governante assume que avaliza essas práticas. Um dia, não poderá se queixar se for pendurado de cabeça para baixo.

Diante da naturalidade com que as pessoas passaram a reagir ao serem chamadas de fascistas, era fatal que outro cadáver ideológico ressurgisse da tumba em que foi sepultado nos anos 50 —o stalinismo. Assim como já não basta ser conservador ou de direita e é obrigatório ser fascista, não é mais suficiente ser liberal, social-democrata, socialista ou mesmo comunista. É preciso voltar a Josef Stálin, o pai dos povos, o guia genial da humanidade, como o chamavam os zumbis que o seguiam e justificavam tudo que ele fazia.

Com os neofascistas e neo-stalinistas na área, é fatal também que, de repente, voltemos ao dia 23 de agosto de 1939, quando o mundo ouviu, sem acreditar, que Stálin e Adolf Hitler tinham assinado um pacto de não-agressão. Mas era verdade. Stalin, inclusive, saudou “o amado Fûhrer dos alemães”.

Os extremos, afinal, se encontravam.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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