A nova política de enxames

As mídias sociais são a vitória da imprensa marrom sobre imprensa com ética

O termo “nova política” é conhecido. Marina Silva é uma campeã no uso dessa expressão. O sentido é mudar o fisiologismo da política brasileira e dar a ela um tom mais centrado no país e não nos interesses de lobbies corruptos e da casta política.

Bolsonaro navegou nessa ideia —apesar de, a cada dia, sua administração afundar em suspeitas de que há rachaduras na coisa.

Agora, o termo “nova política” está ganhando um novo significado, que nada tem a ver, diretamente, com combate à fisiologia.

A “nova política” está diretamente ligada às mídias sociais. A máquina política sentirá cada vez mais a pressão, vinda das redes, que as empresas e marcas já sentem há algum tempo. Quem achou que, com a entrada dessas ferramentas, a política ia ficar com menos marketing errou. Ela dependerá cada vez mais do marketing, agora, digital.

O mundo dos costumes e da arte já vem sentindo a bota das mídias sociais em seu pescoço há anos. Artistas e gente famosa em geral já são presas de posts e vídeos de seus seguidores há algum tempo.

As mídias sociais são a vitória da imprensa marrom sobre a imprensa com credibilidade. A ética desse tipo de imprensa marrom é de enxame. Por onde passa, arrasa o mundo.

O problema é que, quando está a seu favor, você chama de “democracia direta”, “mais poder para o povo e para o cidadão”. Já quando está contra, diz que “destruirá a democracia representativa”, “colocará em risco os ritos do Legislativo”, “é uma ferramenta populista”.

A verdade final é que o problema é o mesmo que preocupava os autores de “O Federalista” (Fundação Calouste Gulbenkian, 812 págs.).

Essa obra foi escrita por Alexander Hamilton, James Madison e John Jay na virada do século 18 para o século 19, nos EUA. O problema deles era: como escapar da tirania do rei e não cair na tirania do rebanho ou da maioria? As mídias sociais recolocam de forma dramática o mesmo problema. Agora, o efeito enxame está capilarizado ao infinito e se move na velocidade da luz.

Alguns utópicos, à esquerda e à direita, dizem que isso tudo é bom e é, finalmente, a verdadeira democracia. Criptoanarquistas das bitcoins (coisa de gente narcisista com discurso bonitinho), defensores de comissariados do povo e anarco-capitalistas são todos utópicos mais ou menos oportunistas.

Sem dúvida chegamos à democracia “na forma consumo”. Se o consumidor-eleitor quiser algo, e esse algo viralizar, a pergunta que se colocará é: alguma instituição sobreviverá a esse enxame de irrelevantes que chegaram ao poder?

Muita gente associada à vitória de Bolsonaro acha que foi lindo as mídias sociais derrotarem a televisão. E antes que algum inteligentinho de direita grite que TV e jornais estão vendidos à esquerda (o que é mais ou menos verdade em termos da camada média do jornalismo que tem a cabeça feita na faculdade e nas redes), lembre que “democracia direta” é faca de dois gumes.

A única coisa que não é ambivalente nessa “nova política” é o fato de que ela opera pela lógica do consumidor. E o consumidor costuma ser alguém egoísta, mesmo quando boicota alguma coisa a partir de sua pouca informação, sua visão enviesada de mundo ou seu puro e simples ressentimento de pequeno cidadão.

A máxima de Marshall McLuhan, “o meio é a mensagem”, quando aplicada às mídias sociais, significa que “o enxame é a ética da política”. O enxame é a forma da política agora porque a política é, definitivamente, mídia.

O espetáculo da eleição para a presidência do Senado mostrou isso. Nada há de democracia direta nessa história, só há para gente que acredita na máxima “um celular na mão e uma ideia na cabeça”.

A democracia direta das mídias sociais como utopia é mais um sintoma do retardo mental que assola o mundo. Aliás, o próprio “caráter direto” como paradigma é traço desse retardo mental: acreditar num mundo limpinho, simples, verdadeiro, sem as sujeiras humanas, é uma marca da morte do amadurecimento.

Essa “nova política” terá procedimentos fake como paradigma. Bots como agentes políticos definitivos. Oportunistas como “filósofos formadores de opinião”. Um retorno à pauta dos federalistas americanos pode nos dar alguma luz.

Ainda que os oportunistas de salão continuem a delirar com o fato de que agora as pessoas estão “empoderadas”. Palavra horrorosa, que deveria ser escolhida por algum dicionário inglês chique como signo máximo do ridículo contemporâneo.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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