Alice Ruiz

Apresentar uma exposição é quase como apresentar uma apresentação.
 E isso, a princípio, não parece fazer muito sentido.
 Apresentar o apresentado na exposição é ainda mais non-sense, pois se espera que a própria exposição cumpra essa função.
 E, além de tudo, esse apresentado, em especial, dispensa apresentações.
 Mas, ainda assim, é o que o curador deve fazer.
 Mais que organizador ou tutor, talvez a função se explique no próprio nome.
 Curador, com licença poética, é quem cura.
 Cura os lapsos de memória que o tempo provoca.
 Cura os muitos mitos e equívocos em torno de um nome.
 Cura a lacuna que esses cometas mágicos deixam ao partir.
 Isso, quando cura acuradamente.
 
Para alguns, Leminski era principalmente poeta.
Mas, além de grande poeta, é bom lembrar que ele foi:
um pensador de cultura,
haikaista,
tradutor,
biógrafo,
jornalista da imprensa escrita e televisionada,
ensaísta,
contista,
romancista,
autor de experimentações verbais e visuais,
“polemista”,
roteirista de histórias em quadrinhos,
judoca,
professor,
publicitário,
compositor.

E, em tudo isso, inovador.
Sem nunca ter usado um computador, Paulo Leminski navegou com destreza por todos os rios onde sua bússola, a palavra, o levou.
 E aí incluo também a música, porque, como ele mesmo disse, “a música nasce na forma como entoamos as palavras”.
 
Esse navegador, que abriu tantos novos espaços, nunca saiu do Brasil e quase não saiu de Curitiba, com exceção de três episódios curtos, um comigo no Rio de Janeiro, e dois em São Paulo: o primeiro na pré-adolescência, no mosteiro de São Bento, e outro no seu penúltimo ano de vida, 1988.
 
Mas preferiu sempre Curitiba, porque (mais uma vez como ele mesmo dizia) “pinheiro não se transplanta”. Uma forma criativa de declaração de amor à sua terra.
 
Desde sua morte, esse amor vem sendo, aos poucos, correspondido pela cidade. Mas nunca tanto como agora. Enfim sua multiplicidade é contemplada e pode ser contemplada por quem o conheceu bem, por quem o conheceu um pouco, por quem acha que o conheceu, por aqueles que não tiveram essa oportunidade e agora têm.
 
Tinha que ser no Olho essa contemplação. Digo, no Museu Oscar Niemeyer, que agora abraça e expõe todas as facetas do Múltiplo Leminski.
 
Alice Ruiz S

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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