Aos falsos Paideumas

occam-2William of Ockham

Um aspecto do espetáculo que se tornou possível através da pesquisa de criptodramaturgia é o “Cânone de Occam”. Texto que reúne as 64 ocorrências deste termo ao longo da obra e suas vizinhanças (partindo da seleção de 333 caracteres em torno de cada “bip” desta mensagem código).

Occam, além da figura histórica do monge-filósofo nominalista e autor de um tratado de lógica que dá bases para a linguística moderna, é também para Leminski o monstro semiótico perturbador de contextos, avatar do elo perdido entre a apressada sensação de “nonsense” e a vertigem da polissemia infinita. Occam é o glutão faminto pelas sínteses e cozinheiro das ambiguidades da prosa – aquele que ao se mover pelas páginas faz as sílabas saltarem umas sobre as outras e as letras espirrarem para fora das frases como um abalo sísmico da linguagem – catalisador de neologismos, trocadilhos e monstroprismas semânticos.

“No Catatau, suspeito ter criado o primeiro personagem puramente semiótico, abstrato, da ficção brasileira. Occam é um monstro que habita as profundezas do Loch Ness do texto, um princípio de incerteza e erro, o “malin génie” da célebre teoria de René Descartes.

A entidade Occam (Ogum, Oxum, Egum, Ogan) não existe do “real”, é um ser puramente lógico-semiótico, monstro de zôo de Maurício interiorizado no fluxo do texto, o livro como parque de locuções, ditos, provérbios, idiomatismos, frases-feitas. O monstro não perturba apenas as palavras que lhe seguem: ele é atraído por qualquer perturbação, responsável por bruscas mudanças de sentido e temperatura informacional. Occam é o próprio espírito do texto. É um orixá azteca-iorubá encarnando num texto seiscentista.” (Paulo Leminski)

Glerm Soares

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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4 respostas a Aos falsos Paideumas

  1. Glerm Soares disse:

    Solda,

    Na verdade são 61 as aparições de Occam no Catatau. Fiz e refiz essas contas manualmente depois de revisar a saída dos scripts python, pois tudo indicava que esse número tinha que ser 64, já que era tão próximo e um número importante por sua relação com I-Ching e outras criptonumerologias (é uma potencia de dois, um número binário redondo, portanto também essencial na cibernética).

    O que me deixa a suspeita de que esse “erro” foi planejado é o fato de que existe uma óbvia intervenção na aparição do Occam número 33 que deixa pistas muito fortes de que a contagem toda foi planejada para ter uma relação íntima com o algarismo 3 (Occam, Cartesius e Archewski – os 3 personagens explícitos) , e que esses 3 números que faltam para chegar em 64 também não estão “faltando” por acaso.

    Cito:
    “Durei aqui, o lugar A B C, sendo B a diagonal, A — uma incógnita dia e noite disfarçada em primo princípio de um bom número, — no fundo, curtindo o báratro de uma dízima periódica, pântano de mercúrio onde o C se desperdista como batráquio que é, queimando etapas e pestanas, coaxando: Occam, Occam, Occam, por que me abandonam?” (pg.150 da 3a.edição)

    Ou seja – a menção a importância do algarismo 3 no universo numérico fica aqui explícita, pois uma das dízimas periódicas primas (“primo princípio de um bom número”) é aquela obtida pela divisão de 10/3 = 3.33333333…

    Na 3a. edição há também a publicação de algumas notas do Leminski com o título de “Plano do Catatau” (pg.358) onde ele faz uma contagem de argumentos curiosa, que começa no número 29.

    Interessante conferir algumas coisas a partir deste mapa:

    a) o Occam número 29 está associado a “descoberta de Occam”. Suspeito que isso esteja ali pois também pode estar associado a virada de idade do Leminski dos 29 aos 30 anos, próxima a publicação do livro.

    b) O número 35 indica uma espécie de “revelação” dizendo que ali entram os “UFOS/VIP” da cifragem. O Occam 36 (33+3) é exatamente o Occam que segue-se aos 3 occams seguidos (33,34,35) … e ali descobre-se o “Occam I, o Outro”

    Cito:
    “Raridade corriqueira — e cartão de visita — entre profetas sofistas, os
    cautos encaram com sumo ceticismo as novas do seu regresso em Flandres: Occam I o Outro a quem aprouve servir-se deste nome para engodar uns e nós embora o primeiro, não tendo tido a sorte do epígono ora presente, contentou-se com a fantasia de um principato irreconhecível a um palmo diante do nariz! Sombras destituídas de contrastes, almas, formas! Toda desáspora cerca seus messias: confere, mas conforme teoria a que falta sanção pragmática, a compensação da lei.”
    (pg.152, grifo meu)

    c) há portanto uma óbvia brincadeira de colocar o Occam como o “Messias” bíblico – primeiro com a frase Occam, Occam, Occam, por que me abandonam após as 3 invocações (e/ou seria também menção das derradeiras 3 negações de seu apóstolo número 1?) –

    d) 61) “O jogo dos dois arqueiros, mensagem, flecha” (pg.360)

    e) 64) “Descrição do anel: bola de cristal Artyx=Occam o monstro”(pg.361)

    f) 93) “É IMPOSSÍVEL QUE NÃO ESTEJAM ME VENDO AQUI” {Thelema? “Faça o que tu queres pois é tudo da lei”}

    g) O livro inicia com dois Artyx gêmeos (“Abrir meu
    coração a Artyczewski. Virá Artyczewski”) e finaliza com outros dois gêmeos da mesma grafia (“AUMENTO o telescópio: na subida, lá vem ARTYSCHEWSKY. E como! Sãojoãobatavista! Vem bêbado, Artyschewsky bêbado…) -> Mas vale lembrar que em nenhum momento aparece o sobrenome grafado da forma “Arciszewski” que é o original de Crestofle d’Artischau Arciszewski (1592 – 1656) da Cia. das Índias Ocidentais e um dos responsáveis pela construção do Forte de Iamaracá em Recife. Reafirmando a metamorfose de Artyx em Occam (nota 64 do “Plano do Catatau”).

    Portanto, ou seja, ENFIM – considero a citação dos “64 occams” um catalisador da procura pelos “3 que faltam”.

    …te mando logo mais os scans das minhas anotações pra compartilhar.

    abração!
    glerm

  2. Glerm Soares disse:

    errata:
    *Itamaracá.

    ** confira revisão que te enviei.

    saúde!
    ~

  3. Glerm Soares disse:

    tá lá:

    assunto – “Criptopuzzle dos X-Occams (3×3=3.33333333333…)”

    valeu! 😉

  4. Glerm Soares disse:

    erratexatatá: sei que na verdade não existe “dízima periódica prima”, foi licença poética para falar que 3.3333(…) é uma das dízimas periódicas mais conhecidas, dentre as que envolvem o algarismo primo 3.

    Além do 3 ser a parte mais famosa do número transcendente pi (que diferente da dízima tem uma sequência infinita “imprevisível”)

    ;;
    ~fim.

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