Autobiografia e memória

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Ruy Castro – Folha de São Paulo

RIO DE JANEIRO – Rita Lee acaba de publicar um livro delicioso, que chamou de “Uma Autobiografia”. É uma narrativa, na primeira pessoa, de sua vida como mulher e cantora, escrita com humor e franqueza incomuns em artistas brasileiros do seu porte.

Exemplos. Em criança, foi deflorada com uma chave de fenda por um técnico de máquina de costura. Sentia nojo físico dos Mutantes Sérgio e Arnaldo, dados a babar e cuspir ao falar. Ajudou Tim Maia a depredar a sala do patrão André Midani na gravadora. Foi presa grávida e salva por Elis Regina de abortar. Teve LPs lançados com faixas riscadas a tesoura pela Censura. Cumpriu pena por porte de droga. Aliás, nesse departamento, mergulhou em todo o receituário da farmacopeia — e acabou derrubada pelo que não esperava: o alcoolismo.

É um apanhado e tanto, com final feliz. Mas será uma “autobiografia”? Supõe-se que uma autobiografia seja uma biografia escrita pela própria pessoa, não? E será, mas só se ela usar as armas de um biógrafo, entre as quais ouvir um mínimo de 200 fontes de informações. Na verdade, a “autobiografia”, entre nós, é mais uma memória, em que o autor ouve apenas a si mesmo.

Não há nenhum mal nisto, e eu gostaria que mais cantores publicassem suas memórias. Mas só uma biografia de verdade oferece o quadro completo. No livro de Rita, ela fala, por exemplo, de um show na gafieira Som de Cristal, em 1968, com os tropicalistas e astros da velha guarda. Na passagem de som, à tarde, Sérgio e Arnaldo, “intencionalmente, ligaram os instrumentos no volume máximo, quase explodindo os vidros da gafieira”, e o veterano cantor Vicente Celestino “lá presente, teve um piripaque”. Fim.

Uma biografia contaria o resto da história — que Celestino foi para o Hotel Normandie, a fim de se preparar para o show, e lá teve o infarto que o matou.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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