Zé da Silva

A certeza da dúvida é o caminho mais seguro. Dobrei a esquina e fui na direção do cinema. Por algum motivo, achei que precisa trabalhar. Tinha pouco mais de 10 anos. Não faltava nada em casa, mas ao caminhar na quadra até pouco antes dos cartazes colocados ao lado do “Dom Bosco”, havia o bar, mercearia e sorveteria do dono de tudo, inclusive da meia-água onde minha família se abrigava.

Entrei, coração na boca, e disse que queria vender sorvete na rua. A mulher que atendeu era filha do homem, bonita. Imediatamente me deu um isopor, depois colocou os sorvetes e eu saí pelas ruas do bairro. As cores dos vários sabores eram desbotadas. Muita água, pouco corante. O povo gostava. Produto barato. Fiz isso durante muitos dias. Guardava o dinheiro que me cabia numa latinha de Toddy. Ficava feliz quando o isopor esvaziava. Dia de sol. Resolvi parar assim como comecei.

Sem explicação. Perto do dia das mães. Não sabia o que comprar de presente. Também tinha medo de entrar nas lojas. Fui até a igreja na pracinha do bairro. A bíblia era grande, com dourado na capa. Não sei se ela gostou. Nunca a vi lendo. Até hoje nunca li nem uma única página. Certeza.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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