Bolsonaro e a arte de ser desagradável

Logo que Jair Bolsonaro começou a ficar mais famoso, a partir de vídeos de suas grotescas performances espalhados pela internet, o que mais me impressionou foi a sua estratégia de marketing que basicamente consistia em ser desagradável. Era a continuidade do que ele vinha fazendo na carreira de deputado do baixo clero e que incrivelmente deu certo também na eleição para presidente.

Bem, até aí tudo bem, pode-se dizer com o peso do desconsolo de ter de passar a vida encarando esta realidade brasileira cada vez mais torta. Mas acontece que um sujeito asqueroso pode até se dar bem do ponto de vista eleitoral. O problema é que depois, com certeza, a continuidade da grosseria vai atrapalhar bastante na função para a qual foi eleito.

Pois é o que temos agora no Brasil. Bolsonaro desconhece essa necessidade evolutiva da política. Sua grosseria ensaiada para ganhar votos nem é novidade na política. A diferença é que até aparecer este presidente sem noção, as barbaridades eram abandonadas no palanque. Nas prefeituras, nos governos estaduais e até na presidência da República, mesmo os grandes canalhas se enquadravam na chamada liturgia do cargo, com a contenção da má índole ou da encenação eleitoral dentro de uma razoável adequação às formalidades públicas.

A razão de tal transformação é muito simples. É que levando para o mandato a brigaiada e os insultos de campanha fica impossível ser efetivo no trabalho, seja no Legislativo ou no Executivo. Isso foi demonstrado na própria carreira de Bolsonaro, que manteve durante três décadas o mesmo caráter de arrumador de confusão, o que serviu para que tivesse uma reeleição atrás da outra e até elegesse também os filhos, porém mantendo-se na baixa qualidade política do baixo clero da Câmara, onde era uma figura isolada, até o país virar de cabeça para baixo e ele se dar bem.

E agora o problema é todo nosso. Os brasileiros estão vendo o efeito disso no comando de um país que precisava de uma remexida geral em todos os setores, mas que infelizmente não sai do lugar, ainda atolado em problemas criados pelos governos anteriores do PT e que acabam sendo agravados por esta insistência de Bolsonaro em ser desagradável. O Brasil tem um presidente que parece começar o dia reunindo a equipe para estudar situações em que ele pode intervir piorando o que já não está bom. E o pior é que no final da jornada ele não só alcança como na maioria das vezes ainda dobra a meta.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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