Bolsonaro e o ‘Sistema’

Nas frases claudicantes do 02, descortina-se o programa de governo que resta ao bolsonarismo

Na linguagem da ultradireita, o “Sistema” designa as barreiras postas pela democracia no caminho de candidatos a tiranos.

O que Carlos Bolsonaro pensa é irrelevante. Mas o que escreveu sobre a democracia não é, porque ele apenas verteu para seu estranho idioma, longiquamente aparentado com o português, as sentenças emanadas do cérebro ideológico da ultradireita brasileira.

A insurreição retórica antidemocrática proporciona o ganha-pão de Olavo de Carvalho, o Bruxo da Virgínia, fonte exclusiva da cultura política do clã Bolsonaro. Nas frases claudicantes do 02, descortina-se a história da ascensão de Jair Bolsonaro ao Planalto e, à frente, o programa de governo que resta ao bolsonarismo.

A campanha popular pelo impeachment, em 2015, produziu uma cisão nas falanges da direita. Num certo ponto, Olavo de Carvalho denunciou o MBL, que o tinha na conta de sábio supremo, como traidor da causa.

O Bruxo da Virgínia não se associaria ao “impeachment parlamentar”, a mudança dentro da ordem, preconizado pelos garotos “liberais”. Da sua toca no mato, protegido pela fronteira, o farsante profissional clamava por um levante do povo e dos militares contra o “Sistema”. A desavença original segue ativa, funcionando como um divisor de águas na base ideológica do governo.

O “Sistema” é como chamávamos a ditadura militar nos tempos em que era perigoso dar os nomes certos às coisas. Na linguagem da ultradireita atual, o “Sistema” designa as barreiras institucionais postas pela democracia no caminho de candidatos a tiranos: a Constituição, o Congresso, o Judiciário, a imprensa. O charlatão que pauta o 02 (e o 01, o 03 e o 00) prega a supressão dessas barreiras, a fim de limpar a trilha das “transformações que o Brasil quer”.

Deixo de lado a questão periférica de saber se o Bruxo da Virgínia acredita no realismo de seus balidos pela “marcha sobre Brasília”. Aqui, só importa que seus seguidores ignorantes creem cegamente neles, um pressuposto da relação entre discípulos e sumo sacerdote.

Do ponto de vista de Olavo de Carvalho, a tese de que o “Sistema” emascula o governo Bolsonaro (“os que sempre nos dominaram continuam nos dominando de jeitos diferentes!”) serve como álibi para livrá-lo da responsabilidade intelectual pelo fracasso do experimento em curso. Mas, do ponto de vista do núcleo interno do bolsonarismo, ela é um toque de reunir, um chamado à ação.

Para ser fiel à ideologia da ultradireita, o presidente deve fazer de seu governo a mola de uma “revolução permanente”. A aliança com Sergio Moro e o Partido dos Procuradores cumpriria essa finalidade, traduzindo-a como cruzada de “caça aos corruptos”.

Mas Bolsonaro descobriu que os aliados têm, na figura de Moro, sua própria candidatura para 2022 —e, em nome dela, poderiam transformá-lo na próxima vítima da caçada. Sua reação, que se organiza sob o dístico “minha família acima de todos” e mira o controle do Ministério Público, da Polícia Federal, da Receita e do Coaf, provocou a ruptura do pacto. Hoje, a fim de coesionar o que resta de uma base cada vez mais estreita, o bolsonarismo precisa reciclar o conteúdo da “revolução permanente”.

tuíte veiculado pelo 02 aponta o rumo. O termo “Sistema”, utilizado abundantemente pelo ministro do Isolamento Ernesto Araújo num discurso recente, é elástico o bastante para abranger quase tudo.

Nele, cabem as “elites globalistas”, o “climatismo”, Emmanuel Macron, as leis que protegem as liberdades, um juiz inconveniente do Supremo, o procurador ou policial que pergunta sobre um certo Queiroz, o jornalista “canalha” que não se vendeu, o general que preza a ordem legal ou indaga sobre o plano governamental para a Amazônia. São alvos suficientes para aplacar a fome dos extremistas.

Bolsonaro inveja Nicolás Maduro, que derrubou o “Sistema”. Mas a “marcha sobre Brasília” não está ao alcance de um presidente impopular ou de seus filhos fanfarrões. No lugar dela, teremos incessantes insurreições menores: o caos a conta-gotas.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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