Brasil adentra era movida pela bandidagem sem perspectiva de guinada

Enquanto o mundo vive o antropoceno, era marcada pela força tectônica da humanidade, nós encaramos o ‘rouboceno’

Meu apartamento está em obras há 15 anos.

Quando o comprei, não sobrou dinheiro para nada. Dei um tapa na pintura e dividi a batalha contra o pinga-pinga e os canos rotos em pequenos reparos a perder de vista, que nunca deixaram de me atormentar. Em meio à pandemia, as raízes das ixoras de uma velha jardineira cavoucaram, através da laje, um caminho em direção à luz. Três bonsais robustos brotaram na parede externa do prédio, abrindo passagem para as tormentas cada vez mais frequentes da Guanabara.

A infiltração coloriu o teto dos quartos de matizes psicodélicos, empesteou o ambiente de mofo e pariu uma goteira que encharcou o piso de tábuas, contorcendo-o, como num terremoto.

Com metade do apartamento recoberto por plástico, saí porta afora e dei início ao milionésimo restauro paliativo. Um amigo nos deu guarita na sua casa de praia. Um banho de sal grosso, pensei, talvez descarregue o ebó.

Optamos pelo caminho que cruza o Arco Metropolitano, a via expressa de 71 quilômetros que leva ao litoral. Inaugurada em 2014, na regência de Sérgio Cabral, a rodovia fez parte das reformas pré-olímpicas que sustentaram esquemas escusos do governador cleptomaníaco, trancafiado no complexo penitenciário de Gericinó, em Bangu, desde 2016.

Na primeira vez que cruzei o arco, me espantei com os estupefacientes 4.200 postes de luz alimentados por células fotoelétricas, espetados à distância de 17 metros um do outro.

“Alguém ganhou muito dinheiro com essa árvore de Natal”, comentou meu cônjuge.

O exagero acendia a suspeita de superfaturamento no R$ 1,9 bilhão de custo da rodovia. Hipótese confirmada em 2018, com a prisão de César Augusto Craveiro Amorim, dono da empresa responsável pelo projeto de iluminação da estrada.

Só nesse quesito, o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro calcularia um sobrepreço de R$ 4.000 por poste e um rombo de R$ 17 milhões nos cofres públicos; isso, fora os R$ 22 milhões gastos antes mesmo da inauguração, para conter a instabilidade das famigeradas estacas, erguidas em solo instável por erro do projetista.

Não bastasse a pilhagem dos agentes públicos em parceria com o setor privado, uma vez inaugurado, o arco sofreria onda de saques perpetrada por gatunos do crime informal, devido à falta de policiamento.

Posicionadas próximas às lâmpadas da altíssima paliçada, centenas de caixas contendo as valiosas baterias solares foram arrombadas para a rapina. A escuridão facilitou os assaltos e afugentou os motoristas. O desterro causado pela rara circulação de veículos permitiu butins ainda mais intrépidos, num ciclo sem fim.

Corrupção, ineficiência, desperdício, falta de planejamento e patrulhamento, violência e barbárie… Nada de novo aqui. Confesso, no entanto, o choque que levei naquele dia, quando, saindo da Dutra, virei à esquerda em direção à Itaguaí e dei de cara com o inimaginável.

Para quem desejava se esquecer da reforma perpétua, a degradação do Arco Metropolitano estava ali para lembrar a ruína civilizatória do meu estado.

Era como se uma hecatombe nuclear, a explosão de Angra 3, tivesse derrubado, de uma só vez, quilômetros e quilômetros de postes. Os mesmos postes superfaturados jaziam, agora, no chão, como árvores tombadas, mas de maneira ordenada, em cruz, no canteiro de grama que separa os dois sentidos da via.

Não fosse o histórico fluminense, não fosse o Brasil, eu juraria se tratar de uma instalação artística da Bienal, concebida por Rauschenberg, Richard Serra, Christo ou Chris Burden, mas não.

A bandidagem em fúria, numa movida madrileña, criara a gigantesca intervenção, serrando centenas de postes, um após o outro, com maçaricos anônimos, a fim de facilitar a pirataria das baterias restantes e bloquear a estrada durante os roubos de carga de caminhões.

Só as contorções de Charlston Heston diante da Estátua da Liberdade, no fim de “O Planeta dos Macacos”, para dar conta da assustadora visão.

Não quero ser injusta com o Rio de Janeiro. André do Rap anda rindo à toa no Paraguai; garimpeiros, grileiros e madeireiros avançam sobre a Amazônia e políticos continuam forrando as cuecas com lobos-guarás. A diferença é que, por aqui, o latrocínio virou arte. Enquanto o mundo adentra o antropoceno, era geológica marcada pela força tectônica da humanidade, o Brasil encara o rouboceno, sem nenhuma perspectiva de guinada.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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