Braulio Tavares

São muitas as metáforas para a fragilidade de nosso conhecimento do Universo, seja ele o conhecimento científico ou o religioso.  Só temos acesso a fragmentos, e organizamos esses fragmentos de acordo com sistemas um tanto ou quanto arbitrários.  Vêm daí as metáforas tradicionais que ironizam as limitações do nosso saber.  Somos a traça que está devorando uma coleção da Enciclopédia Britânica. Somos a formiga que percorre o Louvre e tenta descrever o que está vendo. Somos a mosca do cinema que sai da platéia e vai pousar na tela, na esperança de entender melhor o filme. 

Em “Um cântico para Leibowitz” de Walter M. Miller Jr. (1960), uma guerra atômica no século 20 deixa o planeta em ruínas.  Dessas ruínas, penosamente, ergue-se uma nova civilização, não sem que antes o mundo passe por uma idade das trevas em que a ciência, o conhecimento e os livros eram considerados culpados pela desgraça que acontecera.  A ordem religiosa de São Leibowitz tenta preservar documentos importantes para que nem tudo da cultura humana seja destruído; mais ou menos como em “Fahrenheit 451” as pessoas decoram livros inteiros para evitar que seu texto se perca.  Muitos desses documentos são papéis que pertenceram ao fundador da Ordem, um engenheiro elétrico chamado Leibowitz, e vários trechos do livro mostram a discussão dessas relíquias conservadas através dos séculos.  Quando o texto das relíquias é reproduzido, vemos que são diagramas de instalações elétricas, listas de supermercado e outras coisas que nós, do século 21, facilmente identificamos, mas que não podem ser compreendidas nessa cultura do século 26, que é meio medieval e mística.

Os papéis de Leibowitz, que afinal não são mais importantes do que qualquer papel das gavetas de nossas escrivaninhas, são tratados com o cuidado que o mundo de hoje dá aos Manuscritos do Mar Morto ou ao Livro Sagrado dos Maias.  Quem os estuda acredita existir ali uma sabedoria oculta, mesmo que ninguém consiga chegar a um acordo sobre o seu significado.  Uns tentam interpretá-los cientificamente (mas à luz de uma ciência que já não é a mesma nossa) e outros os tratam como objetos sagrados, inspiradores.  Miller parece sugerir que o nosso mal-entendido com relação aos nossos textos sagrados (Miller pertencia ao pequeno mas importante grupo de escritores católicos da FC norte-americana) talvez nos conduza ao erro pelo viés da Razão, mas pelo viés da Fé pode servir de inspiração para nos conseguir o acesso a verdades mais profundas.  O que importa não são as banalidades escritas nos papéis de Leibowitz, mas as coisas grandiosas que os religiosos do futuro imaginam decifrar neles.

Braulio Tavares

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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