Braulio Tavares

repartição-assombrada© Mahl Ghost

Cuidado ao entrar ali, cidadão comum em busca de um atendimento ou da solução de algum problema! Aquele recinto povoado de funcionários, de mesas e de máquinas esconde em si um pesadelo, um drama que se confunde com a própria falta de sentido da existência. Ali, vagam fantasmas que interferem nos computadores durante o trabalho, apagando arquivos e retomando partidas de paciência ou de Tetris que um assistente administrativo deixou incompletas ao morrer. O cafezinho trazido na garrafa térmica desaparece antes de ser bebido; foi satisfazer alguma sede ectoplásmica, ou espantar o sono dos que mofam no Limbo. Ai de quem deixar vazia sua cadeira em certas horas próximas do crepúsculo, pois um paletó espectral surgirá no encosto, reivindicando a posse daquele espaço, mesmo que seu dono esteja agora a debater-se na Geena, o lugar onde há choro e ranger de dentes.

Não adianta comprar todo dia uma caixa nova de clips de papel; ao abri-la, será constatado que algum espírito penitente encangou todos eles numa correntinha que simboliza seu aprisionamento no âmbar pegajoso de algum Umbral. Ali, as tardes intermináveis do expediente se arrastam entre bocejos, suspiros, olhadas sorrateiras ao relógio que recusa-se a avançar. Que farfalhar de folhas de papel se escuta de vez em quando? Será o vento bonachão e corriqueiro deste mundo, ou uma corrente de ar vinda do outro, ao se abrir alguma das eclusas ou clarabóias que servem de passagem entre os dois? E essas esferográficas que secam sem aviso? E essas impressoras que, do nada, começam a esmigalhar as folhas A4 nelas inseridas? E essas fluorescentes que começam a piscar de forma intermitente, nem queimando de vez nem voltando ao normal?

Ah, esses homens e mulheres não sabem a profundeza do aquário que os acolhe todos os dias, entre uma e outra batida no relógio de ponto. Não sabem que das profundezas abissais do casulo de espiritualidade que os envolve começam a subir, atraídas pela sua presença, as hordas de lâmias famintas, de abantesmas espavoridas, de sanguessugas fantasmais que acessam nosso mundo para alimentar-se da sua luz e sua vida, às custas da energia vital dessas vítimas desavisadas que, ali, atrasam processos, esquecem empenhos, desperdiçam verbas, extraviam currículos e comprovantes, arquivam petições sem despacho, confundem agendas, protelam atendimentos, encalham tramitações, deixam telefones tocando em vão como bichos torturados, e, presos na gosma cinzenta do baixo-astral que os entorpece, olham pela centésima vez o relógio e pela centésima vez murmuram: “Eita!… Hoje dá meia-noite mas não dá seis horas!…” 

Braulio Tavares

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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