A Internet tanto ajuda quanto atrapalha um escritor. É como ter na mesa ao lado, no escritório, uma secretária eficientíssima, que faz tudo e sabe tudo, mas insiste em trabalhar usando fio dental. Toda vez que o sujeito faz um ponto/parágrafo, vem a precisão de dar uma olhada. E se chegou a resposta àquele email ansioso que mandei ontem para a editora? E se alguém tiver postado algo interessante no Facebook? E se no Twitter tiver acabado de aparecer um link que vai me dar de bandeja o tema da coluna de amanhã? E se o saite da CNN tiver uma revelação bombástica sobre a campanha presidencial nos EUA? E se alguém tiver postado um comentário interessante no meu Blog? Por falar nisso, quantos acessos o blog teve hoje?

Muitos escritores experimentam isto de 10 em 10 minutos enquanto escrevem. Um artigo no The Telegraph me faz compartilhar o calvário de alguns escritores ingleses contemporâneos, que, pasmem, chegam a instalar no computador programas destinados a atrapalhar seu acesso à Internet enquanto escrevem. Zadie Smith (“White Teeth”) usa dois programas, chamados Freedom (também utilizado por Nick Hornby, Dave Eggers e Naomi Klein) e Self-Control.

Quem melhor explica isso é Ned Beauman (“The Teleportation Accident”), nascido em 1985 e totalmente integrado no redemoinho eletrônico. “Eu uso K9, um aplicativo que bloqueia certas páginas em alguns websaites”, diz ele, “e uso um bloqueador de anúncios para bloquear a seção de comentários nos saites. Quando estou trabalhando uso Nanny, aplicativo do Google Chrome, e uso SelfControl para bloquear alguns outros saites”. Quais? Ele responde: “Virtualmente todos os saites de jornais, revistas, blogs e o Twitter”.

Está cada vez mais fácil baixar um aplicativo para amordaçar o computador do que simplesmente adquirir o autodomínio necessário para trabalhar cinco ou seis horas sem abrir um navegador. Cinco ou seis horas? Estou sendo utópico. Não me lembro a última vez em que trabalhei duas horas seguidas sem dar um pulo nos usuais suspeitos (email, Facebook, Twitter, Wikipedia, Terra, CNN, StereoMood, Mundo Fantasmo).

Que trauma será esse? Falta de vergonha, diria Seu Lunga, e o inglês Will Self, nascido em 1961, afirma: “Internet não tem nada a ver com a escrita de ficção, que é a expressão de verdades que só são obtidas através da observação e introspecção. É um instrumento incrível e seria idiotice não usá-lo, mas é uma coisa que atrapalha a escrita propriamente dita”. Não custa nada fechar todas as janelas, deixar aberto somente o Word, e dizer: “Só conecto de novo daqui a 3 horas, e durante 30 minutos”. Se não conseguir… é falta de vergonha mesmo.

Braulio Tavares

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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