Tratado geral dos chatos nas redes sociais – Carlos Castello, Estadão

Uma tentativa de atualizar as teorias sobre a chatice e seus representantes na internet.

Um chato é um chato é um chato. Mas o chato das redes sociais é bem pior. Parece que a tecnologia turbinou a amolação exponencialmente. Sim, por que sempre existiram maçadores no mundo, só que não como em nossos tristes dias.  A quantidade é imensa, as especificidades infinitas. Por isso, este modesto artigo é apenas o primeiro de uma longa série que pretendemos postar aqui em breve.

COMPLEMENTADOR: Sempre comparecem a seu post para complementá-lo. Mesmo que a complementação não contribua para melhorar, esclarecer ou corrigir nada. Se alguém posta, por exemplo, que o Brasil foi eliminado da Copa da Rússia,o chato Complementador vem e escreve abaixo: “não, o Brasil foi eliminado da Copa da Rússia pela Bélgica”. Ou ainda: “não foi eliminado, o eliminaram”.

BEATISTA: Tudo para eles é Deus. Deus resolve tudo, menos as suas observações, sem claquete e parciais, nos posts dos semelhantes. Iniciam ou finalizam todos os seus textos santos com Deus é pai, Deus está no comando, Deus é grande ou o indefectível Fica com Deus. Há uma versão mais visual deles, os que mandam pelo Messenger vídeos com conteúdo religioso. Se o vídeo tiver flores, pássaros ou anjos e, sobre eles, uma passagem do Novo Testamento, é material beatista. Nem Deus aguenta mais esses chatos.

ME TOO: São aqueles que literalmente fazem o que você diz que fez em seu post. Se alguém posta que foi para Reykjavík, eles também foram. E não faz muito tempo. E viram as mesmas coisas que o postador viu por lá. Quanta coincidência. Se outro diz que perdeu um parente próximo, o Me Too afirma estar tristíssimo porque perdeu a mãe. Há até os que acabam se matando porque o dono do perfil se suicidou.

VENDEDOR: Entram despudoradamente nos comentários de posts polêmicos e aproveitam a audiência para vender objetos pessoais usados. Enquanto as pessoas se digladiam opinando sobre racismo, questões políticas ou de gênero, eles anunciam casas, automóveis, câmeras fotográficas e até roupas.

GIFETEIRO: Aqueles que possuem o dom de estragar posts sérios com gif’s estúpidos. Determinado perfil posta um textão sobre o futuro da economia mundial e eles postam nos comentários um porco gargalhando. Um outro menciona a fome na Namíbia e eles postam um meme do Chaves fazendo careta. É a imagem a serviço da falta de noção.

PORNÓGRAFO: Comenta com palavrões. Até para dar bom dia usa, no mínimo, um “porra”. Quando irritado pode tornar-se um Olavo de Carvalho virtual e distribuir impropérios até para os que não são seus seguidores.

POROUTROLADISTA: Chato que sempre vê as coisas por outro lado. Se alguém está dizendo num determinado perfil que o câncer é destrutivo, o Poroutroladista comenta que tudo tem um lado bom e um ruim. O câncer pode ser positivo para repensar-se a vida, reconstruir-se pontos de vista. Se um outro alguém afirma que ganhou na loteria, ele(a) complementa: “parabéns pela bolada, mas, por outro lado, não esqueça de valorizar sua alma

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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