A divididinha

– Mas nem uma linha sobre a trapalhada do Flávio Bolsonaro, o filho nº 1 do capitão presidente?! – estranhou um amigo próximo.

Faço-lhe ver que nada mais precisa dizer sobre o assunto. A não ser que as peripécias de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, como picareta de automóveis e as habilidades no mercado imobiliário do próprio Flávio apenas os afunda mais no atoleiro da malandragem mal explicada.

Até os paralelepípedos da minha velha Saldanha Marinho sabem que o que aconteceu (e talvez continue acontecendo) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro é uma velha prática presente em quase todos, senão todos, os legislativos estaduais (e alguns municipais) deste Brasil varonil, inclusive na Assembleia do Paraná. É a “repartidinha” ou “rachadinha”, conduta institucionalizada entre os políticos, através da qual um assessor parlamentar é nomeado e, no final do mês, divide (às vezes, até mais do que a metade) a remuneração com o nobre deputado que o nomeou. Uma explícita safadeza, reprovável sob todos os aspectos, mas real.

Não por acaso, a procuradoria-geral de Justiça do RJ, investiga 27 deputados estaduais por improbidade administrativa. A lista inclui 75 assessores que tiveram movimentação bancária muito acima do que eles recebem ou recebiam, segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). O MP quer saber a origem e o destino das movimentações financeiras e também pretende esclarecer se esses funcionários eram obrigados a repassar parte dos salários que recebiam para os deputados, ou ainda se eram “fantasmas”, para que os parlamentares ficassem com os vencimentos.

O nobre deputado Flávio Bolsonaro, prestes a assumir uma cadeira no Senado Federal, apenas demorou um pouco para entrar nessa cena. Tinha um arrecadador pessoal, o policial aposentado e assessor Fabrício Queiroz, que fazia o recolhimento da grana, depositava-a na própria conta corrente e, depois, procedia à devida distribuição (a futura primeira dama recebeu em sua conta R$ 24 mil, como parte do pagamento de um suposto empréstimo do marido a Queiroz). Fabrício só não esperava cair, ele próprio, na rede do Coaf, sob suspeita de lavagem de dinheiro e ocultação de bens.

Também, pudera! Os “rolos” de Queiroz começaram com R$ 1,2 milhão, entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017, mas podem chegar a R$ 7 milhões.

A ligação de Fabrício com Flávio era inevitável. O deputado defendeu, claro, o assessor, pôs a mão no fogo por ele, garantindo-lhe a idoneidade e lisura de comportamento, ainda que se negasse a prestar depoimento ao MP.

Foi além na sua estultice: impetrou – ele que nem parte era na questão – mandado de segurança junto ao STF pedindo a suspensão das investigações sobre o assessor Fabrício Queiroz. E a estultice das estultices: teve liminar deferida pelo brilhante ministro de plantão na Corte, Luiz Fux.

Eis que aí o Coaf flagra movimentação “atípica” na conta corrente do próprio deputado. Em 2017, no período de apenas um mês, 48 depósitos, todos de R$ 2.000, em dinheiro vivo, foram parar, no mesmo dia e praticamente no mesmo horário, na conta de Flávio. Segundo o Coaf não foi possível, na ocasião, identificar o autor dos depósitos, feitos no autoatendimento da agência bancária da Alerj. Essa prática fracionada, aliás, é um velho truque para ocultar a origem do dinheiro.

Só que o insigne deputado Flávio Bolsonaro assumiu publicamente a autoria dos depósitos, justificando ganho de tempo, isto é, achou que ao preencher, identificar e depositar no caixa eletrônico 48 envelopes, em sequência, seria mais rápido do que levar os R$ 9C6 mil diretamente a um caixa pessoa física e depositá-los de uma só vez…

O assunto, presente diariamente nos jornais e nos noticiários da TV, está incomodando o Palácio do Planalto. Ainda que o ministro Onyx e o conselheiro Augusto Heleno garantam que “a coisa não tem nada a ver com o governo”, tem sim. E muito. Flávio Bolsonaro é o filho nº 1 do capitão que se elegeu Presidente da República do Brasil escorado no discurso moralista de seriedade administrativa e combate intransigente à corrupção, às malandragens e à patifaria de políticos e homens públicos.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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