Cem anos de capa e espada

Zorro, a centenária criação de Johnston McCulley

Diante da boa repercussão do texto da semana retrasada, vou continuar no tema. É também uma maneira de esquecer um pouco das asneiras cotidianas do capitão-presidente. Além do que, há um justiceiro muito mais autêntico e eficiente (da literatura, do cinema, da TV e dos quadrinhos) completando neste mês de agosto do ano da graça de 2019 cem anos de vida.

Refiro-me ao Zorro. Não àquele que cavalga o belo corcel Silver, usa balas de prata e tem um companheiro chamado Tonto. Este foi indevidamente batizado de Zorro no Brasil, pelo editor Adolfo Aizen, da saudosa Ebal, mas chama-se, na verdade, The Lone Ranger ou Cavaleiro Solitário, embora seja igualmente cultuado pelos leitores de gibis.

O Zorro (em espanhol “raposa”) a que me refiro é aquele criado pelo escritor norte-americano Johnston McCulley e que apareceu pela primeira vez no dia 9 de agosto de 1919, na história “The Curse of Capistrano”, publicada em cinco partes na revista “All-Story Weekly”. Defensor dos pobres e oprimidos, enverga traje todo preto, incluindo capa, chapéu tipo sombreiro cordobés de aba larga e um misto e capuz e máscara que lhe cobre a cabeça e a metade superior do rosto. É um acrobata e especialista em armas de fogo, ainda que prefira manejar a espada, com a qual costuma esculpir um “Z” com três golpes rápidos na testa ou no corpo dos inimigos. Seu cavalo chama-se Tornado, um quarto- de-milha de sete anos e sua vítima favorita é o roliço, glutão e atrapalhado Sargento Garcia (originalmente, Sargento Gonzalez), miliciano da colônia californiana da coroa espanhola.

Zorro é a identidade secreta de Don Diego de la Vega, filho único de Don Alejandro de la Vega, rico estancieiro e proprietário de terras da Califórnia.

Um dos primeiros exemplares de vingador mascarado com dupla identidade, o personagem teria sido inspirado em um mexicano a meio caminho de bandoleiro e patriota, na Califórnia do século XIX, Joaquín Murieta. Outra inspiração teria sido Pimpinela Escarlate, um justiceiro inglês que teria atuado durante a Revolução Francesa, criado pela escritora Emmuska Orczy, uma britânica de origem húngara.

Ainda que tenha nascido na literatura, a popularidade do vingador mascarado de McCulley começou no cinema, em 1920, na adaptação de “A Marca do Zorro”, estrelado por Douglas Fairbanks. Em 1936, A Republic Pictures lançou “The Bold Caballero”, com Robert Livingston; no ano seguinte, saiu “Zorro Rides Again”, com John Carrol a frente do elenco; em 1939, foi a vez de Reed Hadley; e em 1940, a 20th Century Fox apresentou um remake de “The Mark of Zorro”, protagonizado por Tyrone Power. Mas o herói deslanchou de verdade quando foi assumido pelos estúdios de Walt Disney, a partir de outubro de 1957, com o ator Guy Williams no papel principal. Aí, o herói chegou à TV (foram 78 episódios em preto e branco, sendo colorizado em 1992), aos quadrinhos e outras mídias, conquistando a plateia internacional. Uma curiosidade da época dos estúdios Disney: Guy Williams era obrigado a gravar as cenas de duelos apenas às sextas-feiras, pois, caso o ator se machucasse, teria o final de semana para se recuperar.

Ao longo da carreira do personagem de McCulley, no cinema, usaram a máscara e a espada de Zorro os atores Alain Delon, George Hamilton, Henry Daeeow, Duncan Regehr, Antonio Banderas e Anthony Hopkins, entre outros.

Nos quadrinhos, Zorro foi publicado de forma irregular pela Western Publishing, através do selo Dell Comics de 1949 a 61. Quando passou para os estúdios Disney, as histórias passaram a ser desenhadas por Alex Toth e Warren Tufts, algumas hoje clássicas.

No Brasil, Zorro foi primeiro publicado pela Ebal na revista Edição Maravilhosa, numa adaptação da Dell. Depois, nos idos de 1979, a editora de Adolfo Aizen ofereceu a série Zorro, Capa & Espada, produzida por Franco de Rosa, Arthur Garcia e Sebastião Seabra.

Na Editora Abril, então detentora dos direitos sobre a produção Disney, quando o material original americano escasseou, as histórias de Zorro foram desenhadas por Rodolfo Zalla e Walmir Amaral. Os roteiros eram de Primaggio Mantovi e Ivan Saidenberg.

O personagem ficou sem ser publicado nos Estados Unidos por décadas, até que em 1990, a Marvel Comics lançou uma série de 12 edições, baseada na série de TV, estrelada por Duncan Regehr.

Mais recentemente, a editora americana Dynamite Entertainment voltou a publicar histórias do herói.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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