Fraga

retalhos

Ele é o tal. Bem talhado, é leve e seu design é estruturado para conservar permanentemente a aparência impecável. Seu material não proveio de Kripton, logo, não traz a indestrutibilidade do uniforme do Super-Homem. Sua blindagem, interna, não é nem de kevlar nem de aramida, as proteções mais eficientes dos coletes à prova de bala – a maioria tem uma entretela, tira de uns 6x35cm que absorve a goma que as passadeiras especializadas se encarregam de afixar nele. Após este ritual de prensagem a altas temperaturas, sob vapor, ele está outra vez apto a desempenhar suas funções de fiel escudeiro dos poderosos, mais conhecidos como banqueiros, empresários, políticos, executivos, vulgarmente reconhecidos como manda-chuvas, big-boss, chefes etc.

Usado em torno de uma das mais frágeis regiões do corpo humano, ele a reforça de uma aura protetora que mantém ameaças à distância segura. O efeito é uma inibição que afeta agentes da lei e da ordem, que não ousam tocá-lo. O protegido, que tem elevada confiança na sua capacidade defensiva, apenas tem o cuidado de utilizar um desses indispensáveis acessórios por ocasião, com trocas oportunas para garantir sua eficácia durante reuniões nas altas esferas, expedientes decisivos, eventos públicos, ambientes festivos. Nem ao WC vai sem ele. É tão importante que você nunca viu um se demorar na cadeia. Ele é o colarinho branco, o defensor dos fortes e opressores. Se a descrição impressiona, imagine o próprio.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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