Devemos rir desse homenzinho?

Fosse este um livro autobiográfico, eu poderia odiar o machismo e a simplicidade do autor, sem jamais deixar de achá-lo um escritor brilhante

Sem Teresa, o professor Pietro não passa de um “relógio parado na esquina de uma rua movimentada”. Ele se sente aniquilado sem a energia da namorada (e ex-aluna) de 23 anos, dez a menos que ele.

Após três anos de paixão intensa e brigas físicas, um dia decidem eleger e confidenciar o que há de mais terrível em suas biografias, de modo que se tornem, diante desse segredo, presos um ao outro para sempre. Mas, surpreendentemente, terminam logo depois.

Pietro, que narra a primeira e maior parte do livro (por mais de 100 páginas; Teresa e a filha dele, Emma, dividem pouco mais de 20 ao final), encara o rompimento com grande alívio: “Era como se gostássemos um do outro sem medida apenas para poder apurar que nos detestávamos”.

Na sequência, Pietro se envolve com a “esquiva, contida e gentilíssima” Nádia. Uma linda matemática com ambições acadêmicas a quem ele sentia ter muito a ensinar, e que lhe despertava pouca ou nenhuma vontade de ser irônico. O sexo entre eles funciona bem, “assim que acabava, queria recomeçar”, e rapidamente se casam, tendo ao longo da vida dois filhos e uma filha.

Entretanto, durante as décadas em que a história se passa, Teresa jamais deixa de perturbar a mente do professor, agora escritor aclamado e palestrante badalado. Seja através de cartas em que ele narra suas conquistas profissionais, o nascimento dos seus filhos ou suas dúvidas a respeito da fidelidade da mulher; seja porque Teresa, cada vez mais conhecida e celebrada como cientista, parece estar em toda parte, sobretudo no lugar de um superego pronto a destruir o renome do acadêmico tão respeitado.

Talvez invejosa de Teresa, eu tive com a obra também uma relação de amor e ódio. Sugava do livro cada palavra, e a cada 20 páginas tinha ímpetos de jogá-lo longe, voltando pra ele ainda mais curiosa.

Como literatura (e é isso que importa, afinal), amei os parágrafos esplendorosamente bem escritos, a construção dos personagens e o mistério que se mantém apesar das declarações tão humanas sobre como nos sentimos um engodo (ainda mais quando não nascemos em um berço erudito ou em uma família refinada) e sobre inseguranças pretensamente escancaradas.

Porém odiei com toda a minha bile a forma como Pietro se refere às mulheres, como teme as melhores e mais inteligentes e como só pôde se casar com Nádia por imaginá-la tão apaziguada e inferior.

Fiquei me perguntando se, junto com o autor Domenico Starnone, devemos rir do homenzinho tão generoso quanto narcisista, tão genial quanto comum, tão “educador de mente aberta” quanto “marido desejoso de uma segunda e doce mamãe” (e minha aposta é essa, por isso escrevo que a obra é excepcional) ou se tantos elogios (que, ao final, continuam nas palavras de sua filha presa para sempre em um complexo de Édipo malsucedido, de sua esposa frustrada ou até mesmo na violência de Teresa) não significam que Domenico foi mais um a cair na lábia estranguladora de sonhos alheios (mas com o verniz da honestidade e da hombridade) de seu protagonista.

Fosse este um livro autobiográfico, eu poderia odiar o machismo e a simplicidade de Starnone, sem jamais deixar de achá-lo um escritor brilhante. No fim, o drama humano: não é a mulher real que tanto amedronta o homem, e sim a possibilidade de ser visto por ela como o homem que de fato é.

Preço R$ 58,22 (144 págs.) Autor: Domenico Starnone|Editora Todavia

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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