É tetra!

Estar chapada é coisa da minha cabeça

Ver se essa piada “é tetra!” é boa para falar de tetra-hidrocanabinol. Não tenho certeza. Comecei um óleo com THC pra dor crônica e quero escrever sobre isso. Eu digo “quero” porque ainda não escrevi e porque eu preciso pesquisar se se chama mesmo óleo de THC, mas eu tô. Eu chamava de. Não se fala óleo com THC.

Há dez anos, quando morei no Rio, eu. Amigos paulistanos, nós conseguimos. Não moramos perto do mar, não temos montanhas embelezando nossas caminhadas e eu jamais fui a um caixa eletrônico de biquíni. Mas nós conseguimos: deixamos os cariocas com inveja.

Estou em pelo menos uns quatro grupos de WhatsApp cheios de amigos do Rio de Janeiro lamentando não ter, no segundo turno, um Boulos e uma Erundina pra chamar de seus (Freixo, volte!). O que aconteceu no último domingo foi grande parte da cidade dizendo “pega aqui no meu boleto” para os faria limers. Ou, talvez, arrisco sonhar, até mesmo alguns faria limers cansados do seu lado mais obscuro podem ter participado desse coro, ousando apostar em dias melhores para todos os mercados, incluindo o mercadinho de frutas de Sapopemba.

Essa piada com mercado não é de todo ruim. Estou há horas olhando pro papel e não veio mais nada a dizer. Em reuniões no Zoom vocês prestam de fato atenção no que está sendo dito ou ficam olhando a decoração cagada da casa dos mais abastados e selecionando a galera que você pegaria em festas? CBD não dá barato e tira a dor. Tomo o CBD durante o dia. Posso escrever “foco e fé?”. O THC só tomo à noite.

Eu agora só escrevo com dicionário de sinônimos ao lado porque não lembro exatamente a palavra, mas lembro algo parecido. E nem sempre é sinônimo.

Aguentei o topiramato por três dias. Rapaz, eu tentei ler a bula do topiramato pra ver se dizia algo lá sobre dificuldade em ler. Se você tem enxaqueca, preste atenção: não tome Depakote, não tome topiramato, não abuse do Sumax 100mg. Mas não era isso que eu tava falando. Pare de escrever sobre remédios: nota mental.

Minha mãe virou maconheira junto comigo. Minha mãe tem fibromialgia assim como eu. Tão fofas, mamãe e filhinha. Mas está tomando um óleo diferente, que, segundo ela, tira a dor e ainda tira a fome. Que saudade de ter alguém que chega tirando tudo.

Fui falar num podcast que tenho horror de engordar e há semanas estou sendo xingada. Eles têm razão. Porque o corpo livre e acima do peso é belo e. Tá errado dizer “acima do peso”, porque não deveria existir “o peso”. Padrão é algo que inventaram pra te dominar e deprimir. Me sinto péssima dizendo frases bonitas, porque o que me levou a escrever foram todos os infinitos anos de escola em que eu só escutava frase feia. Cansaço de final de ano, abuso de remédios pra enxaqueca ou THC? Porque o belo corpo livre. Legal, minha gente, mas meu corpo pode ser livre pra não querer engordar? Por que tanta gente tem salas medonhas? Desculpa, mas é só o que eu penso nas reuniões por Zoom. E analiso se pegaria aquelas pessoas também.

Eu quero o óleo da minha mãe e ligo pro médico. Ele diz “já te respondo” e some. Na verdade, eu mandei a mensagem tem meia hora. Sei que eu devo estar ansiosa em algum lugar e daí fico ansiosa em respeito ao meu passado ansioso. Amigos, a dor melhorou. Mas dizem que em estudos com placebo a dor também melhora. Eu odeio a galera dos estudos com placebo dizendo que nosso cérebro pode tudo menos fazer remédios que funcionem.

O médico disse que meu aumento de fome não é por causa do óleo de maconha. Disse que estar chapada é coisa da minha cabeça. Disse que eu estar esquecida não tem nada a ver com os óleos, deve ser porque andei abusando de remédio pra enxaqueca. E disse mais umas coisas que anotei pra não esquecer, mas eu fui comer de novo e quando eu voltei não achava mais o papel.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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