Me doeu muito o passamento do Ministério do Trabalho. Era um companheirão, quase um parente. Tão familiar que tinha o hábito de cutucar o ombro do trabalhador caso o despertador falhasse: “Acorda, Zé, vamos perder a hora.” E lá se ia – de trem, ônibus, bicicleta, carona ou a pé – a dupla mais afinada que já existiu: o empregado e o Ministério do Trabalho. Saudades eternas.

O Ministério do Trabalho pegava junto, dava duro tanto quanto o operário. Quando aparecia briga com o patrão, ficava sempre ao lado de quem só levava porrada. E assim não perdiam as lutas. Foi a primeira união estável que surgiu no Brasil, entre uma pessoa e um órgão oficial.  Exemplo tão bom e bonito de comunhão de interesses que, hoje em dia, os casais preferem mais a união estável que o casamento. O Ministério do Trabalho tinha mesmo uma queda pelos empregados. Deu a eles uma CLT, com benefícios e garantias. E apontou o dedão institucional pros empregadores: “Olha aqui, o salário mínimo é ridículo, sim, mas é o limite: menos que isso é crime!”

E assim, por décadas, vigiou a desclassificada classe patronal, apesar de não ter conseguido desridicularizar o valor do mínimo. Também foi impotente com o trabalho escravo, mas isso era da esfera da sua esforçada colega, a Justiça do Trabalho, outra moribunda dos novos tempos.

Nos últimos anos, o Ministério do Trabalho sofreu demais com o desemprego crescente. O que ajudou a definhar o finado. Mas o velório do Ministério do Trabalho começou enquanto o coitado ainda respirava, durante a campanha eleitoral. Já o enterro, assistido pela população como a um telecurso, à distância, foi doloroso. O único trabalhador que pôde chegar perto do corpo do Ministério do Trabalho foi um terceirizado, o encarregado de remover as letras do seu nome na fachada do prédio que habitava na Esplanada. Uma lápide às avessas. Quanto ao cemitério, não se sabe ao certo qual; é sabido apenas que o caixão baixou em cova rasa.

A mesma profundidade, aliás, do governo que tirou a vida do Ministério Público. Até um dia, solidário amigo. Ainda bem que nas democracias deve-se acreditar na reencarnação das ideias. Você voltará!

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
Esta entrada foi publicada em fraga e marcada com a tag , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.
Compartilhe Facebook Twitter

Deixe uma resposta