Eu sou racista

Esse texto é um jeito de pedir socorro

No primeiro dia de aula da minha filha, eu e meu marido notamos que não havia uma única criança negra brincando pelo pátio. Isso nos causou um misto de tristeza com culpa.

Lamentamos o mundo ser assim e, ao mesmo tempo, nos incluímos nas pústulas do país em que vivemos.

Aquela correria alegre e saltitante de crianças brancas nos dizia tanto e era ensurdecedor: ou estávamos na escola errada ou erramos ininterruptamente por mais de cem anos e ainda não aprendemos nada com isso.

De repente, uma garotinha negra passou por nós e parou a poucos metros, brincando de amarelinha. Eu e meu marido nos olhamos.

Nem tudo estava perdido em nossas vidas de adultos brancos tentando fazer do mundo um lugar menos medíocre para aplacar nossa culpa branca e medíocre.

Pobres de nós, consumistas desenfreados de memes de esquerda e pílulas de sabedoria rápida para não
apodrecer no inferno.

Eu não me aguentei e fui até a menina. “Bárbara”, ela me disse. E eu, esfuziante, dizendo que nunca tinha ouvido nome mais maravilhoso. Elogiei seu cabelo, seu sapato, seu colarzinho. Ela me achou uma idiota e foi correndo encontrar a professora e seus amigos de classe. Sim, Bárbara, eu sou uma completa idiota!

Voltei pra casa me sentindo um lixo. Fui ao encontro de Bárbara movida por contentamento e também por uma necessidade de estimular aquela criança a se sentir amada e acolhida.

E quem disse que ela precisava disso? E quem sou eu pra achar que posso dar tudo isso para ela? Do alto de que patamar de imbecilidade branca acho que posso entregar a uma garotinha negra, que só queria brincar em paz, o bastão da igualdade, a estátua do pertencimento?

Quem sou eu pra achar que uma criança, igual a todas as outras ali, precisava ser destacada pela minha histeria caridosa?

Por que frequento somente lugares em que o negro, quando presente, é alvo de nossos olhares vulgares de “ufa, pelo menos um”?

Por que, por Deus, tratei Bárbara como uma flor rara, delicada e frágil enquanto outras crianças ralavam joelhos na minha frente e estavam ali justamente pra isso? O nome disso, vai ver, é racismo.

Eu vivo de cara feia. Eu sou a clássica “white people problems”, tipo “ai, meu marido isso, meu marido aquilo”. Sendo que Pedro é ótimo. “Ai, meu emprego”. Sendo que tenho ótimos trabalhos.

Mas eu vivo com uma carinha de bosta porque, além de ter dor crônica nas costas e viver com enxaqueca, sou uma idiota entediada pelas rasas imperfeições da minha bolha de privilégios.

Porém, se você cruzar comigo e for negra, automaticamente meu rosto se iluminará, minha voz ganhará doçura e eu vou começar a te elogiar tanto que periga você me falar que, desculpa aí, tem namorado ou namorada.

Eu tenho tanto horror em imaginar que a minha “cara de nada” possa soar como arrogância que passei a, forçosamente, derramar amabilidade pelas ruas. Sabe que nome tem isso? Vai ver que é arrogância. Justamente. A estupidez é viciante e quentinha.

Meus antepassados racistas deixaram uma dívida tão infinita que nem 100 bilhões das minhas risadas e delicadezas pagariam.

Então, sigo nervosa, tola, culpada, forçada, sem saber onde enfiar minha alva cara de tacho. E isso é porque sou uma queridona legalzona de esquerda? Humana pacas?

Não, isso é porque sou uma babaca branca e, como já disse acima, provavelmente racista. Esse texto é um jeito de pedir socorro.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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