Fraga

Tempos atrás, em meio a tantas fake news da época, surgiu uma fake news que despertou atenção: espalhava que não havia mais fake news. O povo gostou e passou-a adiante. Já tinha havido fake news demais, o país precisava de algum sossego. Pelo menos nos tímpanos.

Mas não perdurou. Logo apareceu, vindo não se sabe de onde, uma fake news no sentido inverso. Monopolizou as conversas. Dizia que novas fake news viriam e que seriam incontroláveis. Porém, ao contrário da expectativa, só a fake news maior se disseminou, de tal jeito que por um período nem espaço houve para fake news inéditas.

Após semanas de incessante repetição de uma única fake news, estouraram duas outras de uma só vez. Uma corrente fakenewszeira insistia que de agora em diante as fake news só seriam difundidas se fossem de fontes fidedignas; outra divulgava que as fake news somente se alardeariam caso não fossem alarmantes. Houve confusão, claro. A população não sabia qual fake news era mais confiável para desconfiar. Dias terríveis: qualquer fake newszinha em torno da situação ficava monstruosa de uma hora para outra.

Então, uma fake news sutil se ergueu, devagarzinho, até virar um boca a boca nacional. Não passava de murmúrio, nada preocupante: insinuava que as fake news – todas! – estariam diminuindo. Apenas essa fake news, no cenário incerto, não decrescia, pior, se avantajava. Por isso a informação era ora ouvida com descrença, ora com descrédito, e repassada na base do muito antes pelo contrário. O clima era propício a mais fake news e elas choveram, embora a meteorologia até propagasse outra coisa.

Como tudo que sobe desce, os dias subsequentes ganharam calmaria, nem uma mosca sem fundamento se ouvia. As fake news se mantinham condizentes, à beira do crível. Falsa aparência. Na surdina, aqui e ali, começaram a pipocar fake news, inclusive que ia faltar pipoca. Eram fake news que nem pareciam fake news – eram coerentes, consistentes, convincentes. Ou pelo menos assim soavam, opinava outra fake news sobre tais fake news.

Bem, isso é passado. O que se ouve agora é que a invencionice estaria moderada. Há controvérsias, claro. Já apregoam a incapacidade brasileira de criar fake news como antes. Cochicham sobre improvisos com fundo de verdade. Enfim, nada conclusivo, e ainda tem uma versão que conclui às avessas.

Nas águas das fake news, esse oceano de Lavoisier, as marés de inverdades se sucedem, com voltas, reviravoltas e revoltas. Dizem que a difusão infundada e profusa de fake news é falta do que dizer. Ou do que acreditar, insinuam outras fake news.

Agora que os suspeitos do assassinato de Marielle Franco já estão presos, o terreno para fake news volta a fertilizar: vão dizer que por trás dos assassinos não há mandante.  Antes que apareça, lanço aqui minha desfake news: acho que há até comandante.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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