Retrógrada|Fraga

© Rafael Sica

(Paródia de Pasárgada, poema de Manuel Bandeira)

Vou-me embora pra Retrógrada
Lá sou amigo do reaça
Lá tem o atraso que eu quero
Na marcha à ré que acelero

Vou-me embora pra Retrógrada
Vou-me embora pra Retrógrada
Aqui perdi a vontade de eleger
Lá a existência é uma ditadura
De tal modo torturante
Que a mídia golpista do Brasil
Da safadeza é a gerente
Vem a ser a conspiradora
Da liberdade que já se teve

E como bordarei suástica
Andarei de blindado
Montarei no meu semelhante
Subirei no pau-de-arara
Tomarei banhos de sangue!
E quando estiver acostumado
Com a falta de direitos
Mando chamar a memória
Pra me contar as fantasias
Que no tempo de eu cidadão
Democracia vinha me contar
Vou-me embora pra Retrógrada

Em Retrógrada tudo é regressão
É outra anticivilização
Tem um retrocesso seguro
De impedir qualquer revolução
Tem caixa 2 no whatsapp
Tem fake news em profusão
Tem racismo e homofobia
Para a gente se divertir
E quando eu estiver mais triste
Saudoso de antigas eleições
Quando à noite pesadelo vier
Desejo de me matar ou à mulher
– Lá sou amigo do reaça –
Terei o fascismo que venero
Na cama que me arrependerei
Vou-me embora pra Retrógrada

Extra Classe

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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