Hércules 56

Documentário político elucidativo e de bom gosto. (Hércules 56, 2006). O documentário brasileiro Hércules 56 aborda a história do rapto do embaixador norte-americano, Charles Burke Elbrick, usado pelos militantes de esquerda, contrários ao regime militar, como moeda de troca por quinze presos políticos. Essa é a versão documental, portanto, mais real, da história contada em O Que é Isso Companheiro?, filme nacional de 1997, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Hércules 56, título do longa, é uma referência ao nome do avião que transportou os presos políticos que integravam a lista feita pelos revolucionários.

Em setembro de 1969, duas organizações revolucionárias, a ALN e o MR-8, uniram-se com a finalidade de raptar o embaixador dos Estados Unidos. O documentário, dirigido por Silvio Da-Rin, remonta ao acontecimento, entrevistando os dois lados envolvidos na história, os responsáveis por montar o plano do rapto – a palavra seqüestro não é aceita por seus mentores, pois possui uma conotação negativa, a de crime – do embaixador e os presos políticos escolhidos como moeda de troca pela vida do norte-americano.

Silvio Da-Rin acerta na abordagem para revisitar este capítulo de nossa história, que o cinema parece estar adorando mostrar. Ao colocar os revolucionários, responsáveis pelo rapto do embaixador, sentados em uma espécie de mesa de bar, conversando sobre o desenrolar dos planos, e suas conseqüências, o documentário fica descontraído, e ganha muito mais valor histórico, pois com os personagens envolvidos discutindo o assunto juntos, fica difícil haver qualquer tipo de manipulação, ou erro involuntário, no relato histórico. E isso é muito interessante de se notar. Um acaba ajudando o outro a lembrar de certos detalhes e, por vezes, surgem pequenas discussões a respeito do que de fato ocorreu. Também é interessante acompanhar passagens como a que um dos envolvidos no rapto pergunta aos demais se, caso não tivessem sido atendidos pelo governo brasileiro, executariam ou não o embaixador americano. É realmente gostoso acompanhar uma discussão política, com uma atmosfera descontraída, feita por pessoas que participaram de nossa história.

Se no lado dos raptores o diretor prefere colocar todos juntos para debater o assunto, do outro lado, ele prefere entrevistar os personagens de maneira clássica, individualmente, registrando a impressão de cada um por ter sido incluído na lista. Dos presos políticos que integravam a lista, e que ainda estão vivos, todos participaram do documentário. Eles relatam todo o processo. O momento, em que na cadeia, ficaram sabendo da inclusão de seus nomes na lista, da viagem feita no avião da FAB, Hércules 56, ao México, onde inicialmente ficaram exilados, até a ida a Cuba, convidados pelo governo cubano.

O que me desagradou no filme, mas isso não é culpa do diretor, que apenas fez o que deveria, foi ter de encarar José Dirceu, um dos presos políticos utilizados como moeda de troca, passando a impressão de ser herói da pátria. Claro que o deputado cassado por envolvimento no escândalo do mensalão teve sua importância histórica no combate aos excessos da ditadura. Porém, o tempo tratou de mostrar que Dirceu não é apenas um bom camarada. Ele também comete excessos políticos graves. E quem chegou a essas conclusões não fui eu, e sim, seus colegas de câmara.

Hércules 56 exige de seus espectadores um conhecimento prévio sobre o assunto para um entendimento completo das discussões. Mas, mesmo para aqueles que pouco conhecem sobre o assunto, o filme é elucidador, basta um pouco de esforço. Silvio Da-Rin ajuda o público a não se perder em meio a tantas pessoas. Ele está a todo momento colocando fotos e nomes dos envolvidos com o rapto, e usa um recurso inteligente de destacar os personagens de uma foto, conforme são citados por quem está explicando o retrato tirado em frente ao avião, minutos antes do embarque.

Colocando cada um em seu devido lugar na história – com grande destaque para o hoje ministro Franklin Martins -, e explicando todos os fatos que envolveram o episódio do rapto, este documentário brasileiro é um grande trabalho histórico, que, dificilmente, não será utilizado em aulas de história sobre o assunto.

Emilio Franco Jr.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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