John Lennon Era Meu Cão

Foto de João Winstão

Lennon não gostava de tomar banho, matava o calor embaixo da velha laranjeira do quintal, deitado na terra fria que escavava. Já era um cão velho, de olhos pesados, mas olhos que ainda tinham o mesmo brilho e sentimento que lhe fez merecer o nome e que ainda me cantavam os versos de “Imagine”.

Olhos castanhos saindo de uma pequena massa negra de pêlos. Um filhote desconfiado e sincero que me fez pensar no quão frágeis são os viventes sinceros. Frágil como era John Lennon por trás de toda aquela arrogância estrategicamente pontuada por choques neuraisdesensibilidade. “Vou chamá-lo John Lennon”.

Poderia ter sido Louis, Louis Armstrong poderia ter sido seu nome, pois também me fez pensar quanta beleza tem no mundo.

Vendo-o velho sob a laranjeira, e me perpassando aquele mesmo sentimento de quando ele era um filhote, duvidei que algum dia ele tivesse sonhado com as pessoas vivendo em paz ou com um mundo maravilhoso, pareceu-me então que esse era um sonho meu e aquela criatura repleta de sinceridade era a resposta ao meu sonho. Então era isso que eu via. Lennon nunca me cantou versos.

Espelhos.Todas as coisas nos são espelhos…

Quando Lennon morreu, eu não fiquei triste. Yoko, vendo o sangue, pensou: “morto como um cão”. Então é assim que os cães morrem? Pobre homem! Pobre mulher! Nunca sentiram a areia fria que nos guarda sob a sombra de uma laranjeira.

Daniel Ferreira|Contista, colaborador musculoso,
gosta de cerveja
e Radiohead|autor de Sob a Sombra da Noite(2005)|Academia Onírica|AO|nº1|junho|2011|Teresina|Piauí

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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