Joice Hasselmann e Kim Kataguiri no ringue do Twitter

A semana começa com brigas e não é só troca de tabefes entre namorados, como na relação de Jair Bolsonaro com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Agora tem furdunço de Joice Hasselmann com Kim Kataguiri, coisa muito feia, com troca de insultos pesados pelo Twitter. O bate-boca começou com Kataguiri fazendo críticas ao PSL, que levou Joice a investir sobre ele com uma ferocidade que nada tem a ver com os papéis de ambos. Ela é líder do governo Bolsonaro. O deputado é líder do MBL é um apoiador do governo e ativo apoiador da reforma da Previdência. Deviam estar de namoro firme.

“Oportunista”, “cara de pau”, “moleque”, foi um show no Twitter depois que Kataguiri chamou a atenção do PSL sobre incoerências do partido na relação com Rodrigo Maia. O quiproquó é o efeito visível da tática brucutu de Bolsonaro na relação com o Legislativo. O conceito “negociação” virou palavrão, a partir de suas repetidas falas sobre o toma-lá-dá-cá. O desentendimento se espalha, como conseqüência previsível do que o presidente vem fazendo.

Joice foi uma escolha errada de Bolsonaro. Seu perfil não se enquadra de jeito algum na necessidade de equilíbrio, articulação e capacidade de convencimento, essenciais no cargo. Mas aí é uma questão de padrão do gestor Bolsonaro. No embate pelo Twitter, Kataguiri lembra inclusive o tratamento que Joice dava ao presidente da Câmara, outro empecilho para colocá-la como articuladora entre políticos.

Quando atuava como jornalista, ela era uma atiçadora das redes sociais. Segundo a tuitada de Kataguiri, a deputada afirmava que Maia “era o Demônio na Terra, o arqui-inimigo da Lava Jato, o símbolo-mor da corrupção”, o que é verdade. Era o estilo, digamos, jornalístico dela, uma incansável caçadora de audiência e likes.

A investida agressiva de Joice sobre Kataguiri chega a ser uma insanidade política. Primeiro, ele vem defendendo a pauta do governo. E hoje em dia o deputado é líder de uma rede eficientíssima de comunicação na internet, com militância em cidades de todo o país. O ativismo lhe deu quase quinhentos mil votos em um estado eleitoralmente difícil como São Paulo. Sem Bolsonaro pedir voto para ele. O apoio do MBL aconteceu apenas no segundo turno, como voto útil. Nenhuma outra entidade ativista tem a organização e capacidade técnica do MBL, além da empatia com jovens conservadores. Como líder do governo, Joice deveria atuar para estreitar laços com Kataguiri e seu grupo. Política é isso, sem o entendimento de Bolsonaro de que negociação é um lixo.

Mas a desastrosa intervenção de Joice não para por aí. Na sua reação a Kataguiri ela usa o conceito de juventude como desprezível pejorativo. Chama o líder do MBL de “moleque”, como se isso fosse xingar a mãe. Bem, isso vai totalmente contra o discurso da “nova política” contra a velha política, evidentemente uma risível cascata, mas é o que eles repassam por aí. Nos xingamentos ao deputado e líder do MBL, a líder do governo estigmatiza sua juventude como condição de despreparo, desonestidade e vagabundagem.

Não é preciso saber muita coisa de comunicação para entender o efeito disso na relação com os jovens animados com política e ávidos para influir no debate, muito próprio da juventude e altamente saudável para a democracia. Ao usar a palavra “moleque” como um pesado pejorativo, numa época em que isso é um cumprimento até carinhoso, Joice demonstra o que não é novidade para quem conhece seu currículo: ela é capaz de jogar tudo fora quando perde as estribeiras.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
Esta entrada foi publicada em José Pires - Brasil Limpeza e marcada com a tag , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.
Compartilhe Facebook Twitter

Deixe uma resposta