Bolsonaro: sucesso sem competição

Jair Bolsonaro não compareceu ao debate promovido pela Rede Globo nesta quinta-feira, que já é uma tradição nas eleições brasileiras e que dá aos candidatos uma oportunidade de falar para um público mais amplo, com ganhos conforme a qualidade da participação de cada um, mas com certeza em benefício ao eleitor. Outro efeito importante está na oportunidade dos candidatos ganharem votos com um debate mais rigoroso, claro que sempre na dependência da qualidade de cada candidato na defesa de suas ideias e no questionamento aos adversários. Principalmente por esta razão já ficou comum que candidatos mais bem posicionados ou com sérios problemas fujam ao confronto. Em 2006, por exemplo, Lula se recusou a ir ao debate.

No caso de Bolsonaro, ele deixou de participar de todos os debates importantes desta eleição depois de ser ferido com uma faca, em Juiz de Fora. É difícil saber com precisão se de fato existem razões médicas para que ele não participe hoje do debate da Globo, mas de qualquer forma, ainda que comparecesse, sua participação seria em vantagem em relação aos demais candidatos, pois o ataque dramático que sofreu e sua condição de saúde dificultam questionamentos mais rigorosos. É uma tarefa difícil colocar contra a parede uma pessoa que está saindo de uma convalescença forçada por uma violência física.

Esta situação fantástica criou uma vantagem política para o Bolsonaro e coloca o país na condição inédita de ter uma eleição com um candidato muito bem posicionado em pesquisas, que durante toda a campanha não apresentou seus projetos de governo e resguardou-se de qualquer questionamento e da obrigação de explicar-se perante os eleitores. Pior ainda, a se guiar pelas mesmas pesquisas, o Brasil corre o risco de ter um presidente da República eleito apenas pelo convencimento por meio dos memes mais fraudulentos e mentirosos que já se viu nas redes sociais, um voto movido também por medos psicológicos e reais, conceitos sem nenhum fundamento e um antipetismo de pura propaganda, tudo isso instigado de maneira agressiva por seus seguidores mais fanáticos.

Independente do respeito humano merecido por qualquer vítima de violência, se Bolsonaro de fato obtiver sucesso, sua eleição se dará de forma totalmente inadequada, num tremendo desequilíbrio em seu favor, com uma desinformação total sobre o que ele pretende fazer no governo. Os outros candidatos foram obrigados a participar de debates, enfrentar entrevistas rigorosas, comparecer a palestras e encontros, nessas situações sendo confrontados com questionamentos, sofrendo críticas e até acusações. Todos tiveram que enfrentar o risco do desgaste, perante jornalistas rigorosos e plateias implacáveis.

Bolsonaro acabou sendo poupado destes e de outros compromissos desgastantes. Não teve que se submeter a compromissos que desafiam inclusive a paciência dos políticos, que, como já se sabe, nele é muito pouca. Além disso, o candidato do PSL escapou de responder perguntas sobre as obrigações de um presidente, evitando o que acaba sendo um teste de conhecimento sobre as grandes questões nacionais, o modo de melhorar o funcionamento do governo e a resolução de graves problemas nacionais. Neste último caso, o período da forçada quarentena foi um favorecimento especial ao candidato, já que nas suas poucas entrevistas antes de ser ferido ficou muito claro seu despreparo para dar respostas para as mais simples questões políticas e administrativas. O candidato ficava desesperado toda vez que tinha que responder sobre algo que não podia transferir para Paulo Guedes, seu economista, chamado por ele de “Posto Ipiranga”.

Foi neste clima bizarro que transcorreu a eleição deste ano, com um político de discurso violentíssimo, preconceituoso e intimidatório, aparecendo em fotografias e vídeos feitos em uma cama de hospital — nesta nova situação falando manso e com ares pacíficos — enquanto seus seguidores, sua equipe de campanha e até seus filhos continuavam sentando a lenha em todo mundo, repassando mentiras e ameaças. É uma situação fantástica. Mas além do que pode ser visto como pitoresco, é extremamente grave o desajuste criado na disputa política, totalmente contrário ao pleno esclarecimento do eleitor e ao exercício da democracia. Claro que o problema não existiria se a política brasileira fosse regida por um mínimo de caráter público, com o devido respeito às instituições e pela democracia. Caráter pessoal também ajudaria. Qualquer homem decente na situação de Bolsonaro abandonaria a disputa, em respeito à integridade do processo eleitoral. Num país com partidos regidos por regras e pela qualidade pessoal e política de seus membros, a substituição se faria naturalmente.

Mas todo mundo sabe que não é desse modo que isso ocorre no Brasil. Bolsonaro é candidato por um partido de aluguel, escolhido por ele às pressas quando teve a chance de ser eleito. Depois aconteceu o episódio violento em Juiz de Fora, com a anormalidade política instalada na eleição de um país pouco afeito à regras e ao bom senso na conduta pessoal e pública. E o conjunto da sociedade brasileira, já com o costume de aceitar como natural as maiores barbaridades, logo passou a aceitar como normal uma situação política extraordinária, com reflexos negativos muito graves na organização política e social do país.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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