Bolsonaro, o presidente-aprendiz

É muito preocupante e eu arriscaria até em dizer que é desesperador ter na Presidência da República um homem que precisa ser alertado sobre a importância da relação comercial do Brasil com a China, que hoje em dia favorece nosso país em US$ 20,167 bilhões, o que dá 30,1% do superávit total brasileiro de US$ 67 bilhões. Se alguém acha que é um exagero desesperar-se, lembro que estamos falando de um político com quase 30 anos de mandato de deputado federal. Nem com muito otimismo alguém pode acreditar em um aprimoramento dele agora, depois de eleito presidente. Nesta situação, fanatismo não vale.

Está aí uma informação que não precisa vir de um “Posto Ipiranga”. O assunto não exige especialização. Para não falar besteira, bastaria saber ler e ter acompanhado o noticiário nos últimos anos, mas o presidente eleito Jair Bolsonaro não parece ter intimidade com o estudo nem com leituras básicas. Não quero trazer ainda mais preocupações, mas já tivemos um presidente que também não tinha paciência para documentos, relatórios, essas atividades trabalhosas da administração pública. E não é preciso dizer que isso não deu em boa coisa, não só para o Brasil como também para ele, que acabou no xilindró.

Governo curioso, o de Bolsonaro. Nem começou e já terá que dar uns passos para trás, uma regressão criada exclusivamente pela afoiteza verbal do presidente nesses dias da véspera da posse. É até engraçado, pois foi só por falar demais que ele será obrigado a recuos políticos humilhantes ou arcar com prejuízos econômicos que resultarão internamente em perda séria de credibilidade. Não cabe apostas. Bolsonaro voltará atrás no caso da China. O governo chinês não gostou das críticas do presidente eleito e avisou do modo deles: pela imprensa, que na China não é motivo de queixas dos políticos, como Bolsonaro costuma fazer por aqui. Por lá, a comunicação é toda estatal. Editorial do “China Daily” apontou que a vantagem do Brasil na balança comercial não dá motivo para queixas políticas.

Se tiver juízo, Bolsonaro deve voltar atrás também em outro assunto no qual entrou apenas para dar uma, digamos, lacrada política, para a qual nosso país também não tem tanto cacife assim. É a anunciada mudança da embaixada brasileira para Jerusalém. É difícil entender qual é o interesse brasileiro neste aceno político para a radical direita israelense, mas os pontos negativos já começam a aparecer. Logo que ele veio com essa destrambelhada ideia eu falei sobre a encrenca desnecessária que isso traria para o país. Representantes de países árabes já estão avisando que essa decisão pode afetar as relações comerciais com o Brasil. Segundo a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira existe o risco de interrupção de do crescimento do volume de vendas, com projeção de US$ 20 bilhões em 2022. No ano passado, as exportações brasileiras para o conjunto dos países árabes somaram US$ 13,6 bilhões.

Creio que alguém devia avisar Bolsonaro que ele já está eleito. Passou a fase dos memes, capitão. O momento é de se aferrar aos estudos, ao aprofundamento das propostas. É hora de preparar a viabilização prática das ideias e projetos, para em menos de dois meses encarar a mesa do presidente da República, tão atulhada de problemas que com certeza não há necessidade alguma de procurar encrencas novas.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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