Leia-se!

“O dia não faz outra coisa, um hiato afasta a hipótese, o silêncio tem uníssono, é quase nada, um isso, —se não fosse a febre que sabe. De tudo sempre sabem todos: afastando o alvitre de um lapso, vacilam os fundamentos. Um mar, —só que ao contrário; um som que ningúem sabe donde, espelho não erra. Observem exatamente: na Pérsia, isso é comum. As festas persas giram em torno disso mesmo. Todo nome de boi começa a guerra; incentivá-las por todos os lados! Meu nome — nem a penapau! Guerra a ferro, e fogo na festa! Cangacanjica! A flecha atinge Aquiles decerto mas na máscara, o que é outro caso. O espelho reflete tanto a guerra como a festa, não tendo estilo. Uma cobra dá um salto contra o espelho e cai no meio da festa. De quem é, de quem não é, nisso — o exército persa dança. Caso singular: ninguém na Pérsia sabe dançar embora dancem da manhã à noite. Elamentabilis! No axiomanexim, a exegese: quem usa máscara descarece de espelho. O espelho prejudica a dança, olhe nos outros, neles se reflita. Dentro da dança persa, tem um gesto como um soco, um pulo de gato no escuro e um grito de socorro. Baccha bacchans! Ignora-se o autor mas devia ser muito velho a julgar porque é uma dança muito minuciosa em malícias. Próprio dos tigres: não fazer força, feder basta. Gansogingrivit! Que flecha é aquela no calcanhar daquilo? Picatacapau! Pela pena é persa, pela precisão do tiro — um mestre. Ora los mestres persas são sempre velhos. E mestre, persa e velho só pode ser Artaxerxes ou um irmão, ou um amigo, ou discípulo ou então simplesmente algúem que passava e atirou por despautério num momento gaudério de distração. Flecha se atira em movimento, ningúem está parado. Nem o cavalo, nem o cavaleiro; nem a mente, nem a mão; nem o arco, nem a flecha, e o alvo o vento leva: tiro certo. Dentiscalpium in oculo. Todo teu lado direito puxa a linha, todo o esquerdo segura a flecha. Spes! Tiro feito, volta-se à unidade perdida. Mas arcos atrás isso não é coisa que se diga, que se faça, arqueiro pouco diz. Cala-se, de hábito, porque ignora tudo na arte em que é exímio”.

Trecho do Catatau, de Paulo Leminski.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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