Maria, Maria

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Em breve, quando me chamar, quem sabe, a morte, o último cheiro vou levar desta vida será o da açucena. Uma moça estará tomando banho. Olharei por um buraco de fechadura e voltarei no tempo para ser menino de novo.

O calendário está parado numa data imprecisa do começo dos anos 60. Maria, a mulata, nossa diarista, é a moça no chuveiro. O banheiro fica ao lado do quarto dela, nos fundos da casa onde morávamos, na Rua Engenheiros Rebouças, esquina com Westphalen. São dois quilômetros do centro de Curitiba – muitíssimo para a época, uma viagem. O estádio do Ferroviário está à direita. O do Atlético, à esquerda. Nos dias de clássico, dá até pra ouvir a galera.

Jamil Snege, que mais tarde será um grande escritor, mora na mesma rua, 500 metros adiante, mas ele tem uns dez anos a mais, circula em outra turma, a gente quase não se vê. No meu quarteirão, têm casas o palhaço Chic-Chic, do Circo Irmãos Queirolo, e a poetisa Vera Vargas, da Academia Paranaense de Letras. Toda área, por causa de tanta beleza por metro quadrado, é iluminada de fantasia. Chic-Chic pouco aparece, está sempre em turnê. Mas o famoso bandido Carlinhos, genro dele, sempre dá as caras entre uma cana e outra, até o dia em que será morto de tocaia, numa quebrada, na calada da noite, com uma barra de ferro, por dar um tapa na cara de alguém.

A gurizada se diverte assistindo “Os Flintstones” e “Bonanza” pela TV, jogando bolinha de gude e fazendo concurso para ver quem mija mais longe. Um mundo feliz, linear, sem surpresas. Não fazemos a menor idéia de que, lá fora, a ditadura recém-implantada pelos milicos está assassinando brasileiros.

Cem metros acima fica o legendário Bar do Pasquale, ponto de encontro de jornalistas e jogadores, que depois o João transferiu para o Passeio Público. Cem metros abaixo mora dona Valderez, irmã do Vinícius Coelho, o cronista esportivo, que anos depois, na década de 70, vai me arrumar o primeiro emprego, na Rádio Independência – ‘R.I. – a primeira estação daqui’.

Nenhuma dessas doces almas sabe que Maria, a mulata, vem sendo sistematicamente espiada por um garoto taradinho depois do seu expediente. Eu mesmo, o voyeurista. O frestador mirim, desde cedo olhando para os outros sem que eles percebam

Diz a fantasia que, após a terceira vez, Maria ouviu algum barulho do outro lado e, cheia de sestro, passou a se exibir. Não poderia ser por nada que se demorava tanto no chuveiro, nem que se espumava tão provocativamente em paragens tão secretas, cercadas de mistérios e cabelos negros.

Até que um dia, tão de repente quanto possível, Maria abriu a porta e deu o flagra. Foi minha primeira vez frente a frente com uma mulher nua, e minha estréia diante de uma mulher de cabelos molhados.

O que ocorreu então, 40 anos atrás, pode ser uma mentira ditada pelas trapaças da memória. Mas aquele incrível cheiro de açucena ficou até hoje. Era o sabonete Phebo.

Maria tomou-me pelas mãos e levou-me para o quarto, e então eu posso descrever cada suspiro, cada travo, a intensidade de cada batida do coração. A memória não me falhará justo na despedida, de forma que, por favor, foi exatamente daquele jeito, sem tirar nem pôr, detalhe em cima de detalhe, que na solidão daquelas quatro paredes eu visitei o paraíso pela primeira vez.

Almir Feijó

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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