A pergunta veio como um sussurro, ou um pensamento que vem à tona: “será que alguém consegue viver sem isso?”. Referia-se ao barulho das ondas do mar, que se ouvia não muito longe. Pensei um pouco sobre a ideia, e logo percebi que a maior parte da minha vida não escutei esse som, que era tão próximo e fundamental para mim. O som que me fazia dormir, que me fazia sonhar, que me fazia sentir além-mar. Lembrei que o escutava quando criança, quando passeava com minha avó na praia antes do sol nascer. Me chamava a atenção a enorme quantidade de águas-vivas que a maré trazia de madrugada. Não sabia e até hoje não sei por que elas morriam na areia todas as manhãs.

O vento parecia ter combinado com o mar a batida das ondas, vinha e recuava, como se esperasse por aquilo todos dos dias. Uma vez contei quanto tempo levava para uma onda levantar e cair sobre as pedras. Sete segundos. O tempo que demora um silêncio compartilhado, o tempo que traz a espuma dos dias, o tempo que alivia uma dor que ainda não existe.

O som do mar ainda estará lá, infinitamente, com toda a aspereza do que é eterno, do que é indizível, do que ainda não se sabe, da esperança – palavra maldita – que existe uma espécie de futuro, de hemisfério, de linguagem ainda não inventada, de saber o que já se habita. Ouço mais atentamente esse som, porque a pergunta foi feita, porque antes não estava aqui.

Marianna Camargo

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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