Perto

© Arquivo Pessoal

Sou toda essa lembrança. Sou o viés do vento que sopra quando fecha os olhos.  Sou o deserto que invade sua calma com a imensidão das horas guardadas no tempo. A respiração é lenta, o pensamento não existe. Apenas a constatação da paisagem que surge violenta e precisa dentro das minhas manhãs.

Zero grau, voraz tecido da memória, imagem uardada na pele, sigo essa prece ao adormecer. Porque quando sonho parece nítido o que sou. Visceralmente. Preciso dessa lembrança para não esquecer-me. Porque é nos extremos que se reconhece a dor e o sangue. O início e o precipício. O silêncio e a respiração. A linguagem adquire outro significado, aniquila os códigos existentes, o simbolismo universal, a sensatez dos dias certos.

Encontro na aspereza das circunstâncias, do palpável, do concreto, o que temia não mais lembrar. Com toda a fúria, com toda a fuga, com toda a vertigem que se sente quando olhamos para o abismo. Invento o nome de tudo que não é possível, fico com a única a palavra que não esqueço: perto.

Marianna Camargo

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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