Marido não é arrimo nem causa, senhoras

Duas das mulheres mais em evidência no Paraná atualmente, a governadora Cida Borghetti e a advogada Rosângela Moro, marcam um comportamento em público com mais de 100 anos de atraso no que se refere ao papel feminino na sociedade.

Mais do que isso, pela posição privilegiada que ocupam, ao invés de darem exemplo de igualdade entre homens e mulheres, uma conquista fundamental que mudou o comportamento humano em nível global, ressaltam o papel secundário da própria condição e beiram a subserviência.

A governadora Cida Borghetti divide o comando do estado com o marido, deputado Ricardo Barros, dando-lhe tanto poder de decisão, articulação e espaço também nas fotografias oficiais que beira a naturalidade. Mas não é.

Basta ver que nunca nenhuma mulher de um governador paranaense esteve no centro das negociações entre o palácio Iguaçu e o funcionalismo público como o fez o deputado Ricardo Barros nesta semana. E com direito a estabelecer estratégias junto com os deputados da base do Governo.

E qual a função pública exercida por Ricardo Barros no organograma do staff governamental para desfrutar de tanto status? Que salário recebe? Onde está lotado? Pelo que se sabe, não existe nenhum cargo que se denomine “marido” na folha de pagamentos do governo do Paraná.

A função de “marido”, sem vencimentos, abre um espaço amplo, geral e irrestrito para Ricardo Barros, conhecido pela capacidade absoluta de ocupar espaço político. E reduz singularmente o papel da governadora, tanto como primeira servidora pública do Paraná como mulher independente, com opinião própria e capacidade para governar um estado com a importância do Paraná. Passa a imagem de fragilidade, dependente de um arrimo para realizar suas tarefas constitucionais.

Rosângela Moro
Da mesma forma, mas em outro contexto, a mulher do juiz Sérgio Moro, Rosângela, vem se colocando como um adendo familiar há quatro anos, ou na medida em que o marido foi construindo sua imagem de juiz-celebridade, arrojado e herói nacional contra a corrupção.

Mesmo sendo advogada, com trabalho reconhecido na iniciativa privada, se tornou a defensora do marido, como uma causa, na lamentável página do Facebook, “Eu MORO com ele”, hoje já extinta. Assumiu o papel de “mulher do Moro” como forma de projeção, ora em capas de revistas femininas, ora exibindo a elegância madura em eventos no exterior.

Alguém imagina o marido da Procuradora Geral da República, Raquel Dodge (que se sabe apenas que é norte-americano), dando entrevistas sobre a convivência com mulher tão poderosa?

Do que se fala aqui é sobre duas mulheres paranaenses que poderiam dar um grande exemplo de independência feminina – e com toda a capacidade pessoal e formação intelectual para fazê-lo – e se apequenaram no próprio papel.

Para nós, mulheres, um grande retrocesso. E dá um pouco de vergonha alheia também.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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