#mckaram

“A última vez que vi Karam foi na ocasião em que fazíamos parte do Júri de um concurso literário, promovido não lembro por quem. Ele estava feliz por ter feito uma grande descoberta: o prazer da releitura. Estava relendo autores como Flaubert, Balzac e outros clássicos franceses. Naquele dia, discorremos sobre as maravilhas da mente e seu amadurecimento: nada melhor pra medir esta realidade que o ato de reler um livro conhecido há muito tempo. A releitura trazia um refrescor incalculável. Karam era um homem irônico e não perdia oportunidade de fazer gozação com as falsas seriedades do mundo. Eu o conheci nos anos 70, época da ditadura militar. Ele apresentava suas peças no Teatro de Bolso, da praça Rui Barbosa. Naquela época, uma peça só podia ser apresentada passando pela censura centralizada em Brasília. O texto ia para a Capital e demorava meses para ser devolvida. Enquanto isso, os atores decoravam os papéis, ensaiavam e…, lá vinha a peça com muitos cortes, trucando toda a sua espinha dorsal. Diante disso, Karam não desanimava. Ele simplesmente trocava o que fora censurado por outras palavras, metaforiza mais e tocava o barco, sem que a burrice da censura, também presente na estreia, percebesse coisa alguma. Suas peças sátiro-surrealistas causavam muito frisson na cidade. Ele, como autor, tinha um humor corrosivo que deslizava pelo discurso dramatúrgico como mel para nossos ouvidos massacrados pelos tacões militares. Nas conversas de botequim ele era genial com as pinceladas derrisórias que fazia sobre livros realçados pelo momento. Sem piedade, destroçava as obras e os autores e eu só lhe dizia: “quero morrer seu amigo.” Na época que foi declarada a fatwa contra Salman Rushdie, fizemos uma reunião na Gazeta do Povo contra a barbárie. Queríamos, nós, os insignificantes da província, marcar presença e dizer que não aceitávamos a condenação de morte de um escritor em qualquer hipótese, muito menos por que escrevera algo que os poderosos da época não gostaram. Lembro que eu estava lendo o V, do Pynchon e Karam quis ver o que era. Eu lhe falei: “é um romance que o Pynchon escreveu em minha homenagem, o V é de Venturelli.” Ele não contou tempo e respondeu: “Conhece O livro de Manuel, do Cortázar? Pois é sobre mim. Ele me telefonava toda noite para saber detalhes de minha vida e escrever aquele romance.” E assim era o homem/escritor. Sua obra inquieta, irônica, desestabilizadora, pronta a corroer todos os parâmetros, subversiva diante dos dogmas acadêmicos não era apenas uma atitude livresca, de gabinete. E sim a extensão viva e palpitante do que ele vivia no cotidiano. Ele era uma chama viva, pronto a incendiar tudo. Suas gargalhadas contradiziam sua carranca de macambúzio. E seu espírito era alerta, uma verdadeira biruta de aeroporto, pronto a absorver tudo o que ocorria ao seu redor, sempre antenado com motivos/temas que pudessem lhe render textos. Pena que ele se foi muito cedo. Poderia nos ter legado ainda mais livros que derretessem o breguíssimo realismo-naturalismo que impera em nossa literatura atual, quando escritores não têm o que dizer, não têm uma linguagem própria, todo mundo escrevendo dentro da mesma fôrma. Karam implodia tudo. Por esta razão sua obra perdura e perdurará. Ele estava muito além do seu tempo e dentro do seu tempo, vendo-o por dentro e daí extraindo carnadura para os escritos que me espantam até hoje. Ele precisa ser divulgado por este país-continente para que outros aprendam a escrever e o que é escrever com ele.”

Paulo Venturelli, ficcionista e poeta

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo “Se não for divertido, não tem graça.” Contato: luizsolda@uol.com.br

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