Meus heróis morreram de… velhice

Meus heróis não morreram apenas de overdose – eles estão morrendo de velhice – e alguns em situação como a de Luiz Carlos Maciel, pedindo emprego nas redes sociais e encalacrado na penúria financeira. A flor do mal… a flor do mal. Meus exemplares do semanário que ele fez nascer no início dos anos 70 a partir do grande Pasquim, onde escrevia sobre a contracultura, underground, essas coisas que mexerem com nossos hormônios, nossas cabeças incultas, pobres e suburbanas do país que não tem e não vai ter jeito, meus cinco exemplares de uma experiência fora da curva, fora da linha, para fundir a cuca e repensar a vida, o visual impresso, a alma carente, ah, eu carreguei-os como pude, nas mudanças de casas, junto com os panos de bunda, procurando o que não é encontrável, porque a busca é que vale.

Até o dia em que fiz o correto: doei-os à Biblioteca Pública, junto com os números da primeira Rolling Stone editada no Brasil, também dirigida pelo Maciel, e, todos os exemplares do Pasquim bebidos desde o número da entrevista com Leila Diniz, quando aqueles senhores da República de Ipanema mostraram o que sabíamos: todo mundo fala palavrão, mas ninguém escrevia – pior, eram capados. Os asteriscos saídos da boca linda da musa abriram caminho para muita coisa. Meus heróis… Millôr Fernandes, Ivan Lessa, Paulo Francis, Fausto Wolff… eles foram embora antes do Maciel, flor do bem que, educado, respondeu a emails disparados quando da notícia de sua procura por trabalho. Ele filósofo, escritor, roteirista da Globo durante anos, homem lindo, como descreveu Caetano Veloso no seu pranto pelo encantamento do grande gaúcho, carioca e baiano, protagonista do primeiro filme de Glauber Rocha, outro brasileiro doido e dínamo capaz de produzir um mundo de ideias para sacudir pasmaceiras como esta de agora dos radicais babacas de um lado e do outro da burrice que revela que país é este.

Gabriel Garcia Marques se junta a Armando Nogueira porque é preciso ter história pra contar e, melhor, com a possibilidade maravilhosa de se poder editar o passado. Para quem acha que o futuro chegou porque sabe escrever qualquer baboseira com os dois dedões no teclado digital das maquininhas viciantes, os meus heróis morreram de overdose e também de velhice, mas eram privilegiados porque tinham a essência: o talento – e cuidaram dele.

Zé Beto

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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