Noviski, adeus

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Zé Beto, Noviski e o cartunista que vos digita. Foto de Airton Noviski Neto

As crianças estão morrendo muito cedo. Meu amigo Noviski foi embora depois de cair no banheiro da sua casa hoje e de ser socorrido pela família. Era um menino grande de 50 anos. Enorme. O tamanho do seu corpo, gigante, era só menor que seu coração, sua alma, seu jeito sempre traduzido na voz, mansa, doce, musical. Noviski tinha a sensibilidade dos artistas e, por isso, como sempre, sofria – e, às vezes, bebia, mas sempre se revoltava contra este mundo cruel. Mas ele fazia bem isso, a revolta, nas charges que pareciam ser gritadas. Assim que o conheci há anos, na redação do Jornal do Estado. E, caso raro,  foi um gostar à primeira vista, porque parece que este time que se perde por aí tem afinidade total – provavelmente para se segurar mais um pouco. Carlos Alberto Noviski, por ser criança, tinha medo da cirurgia que precisava fazer para interromper e reverter seu processo de aumento de peso.

Ontem, pelo que se informa, fez o procedimento. Hoje está morto e todos que o conhecem estamos perdidos por aí, sem saber o que dizer, sem saber o que fazer – apenas lamentar, chorar, rezar. Há algum tempo eu e outro grande artista, o também cartunista Solda, fomos fazer uma visita à casa do grande. No quintal havia uma Chevetão velho cujo interior estava entupido de garrafas de bebida. Perguntei se aquilo era uma instalação. Noviski riu, como sempre riu, um riso sincero, que tinha humor sadio, galhofeiro, enfim, moleque. Aquela obra, sim, era dele, pois jogava ali dentro as garrafas das festas que fazia em casa para os amigos. Depois houve uma cruzada em forma de rifa para que ele fizesse cirurgia nos olhos – todos, na verdade, querendo o melhor para um dos nossos, um dos bons, um que precisava enxergar direito para criar. Colaborei e não ganhei o desenho quer era o prêmio. Mas o meu deve ter ficado na mente dele, ou na sua alma, não importa. O que importava é que ele ficasse bom, que flutuasse não só na criação, e continuasse a fazer parte daquele lado da balança que está perdendo feio neste país de pulhas. E agora, Noviski? Você e seu peso foram embora e ficamos aqui com um vazio do tamanho da sua bondade e do seu talento.  Amém. Zé Beto

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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3 respostas a Noviski, adeus

  1. Boa noite,a tempo é que tenho a curiosidade de saber e aproveito para perguntar.Você é o Solda que fazia desenho para a Revista “Correio dos Ferroviários”.De Reinaldo Soares de Souza.Ferroviário da RFFSA.Sistema Regional Sul.

  2. Solda disse:

    Reinaldo:

    Sim, eu fazia desenhos para o Correio dos Ferroviários, via Denizar Zanello Miranda.
    Obrigado, amigo, pela lembrança. Trabalhava na Cooperativa dos Ferroviários, na época.

  3. Solda disse:

    O cartunistas da cidade querem marcar um dia na semana pra beber em memória do velho amigo. No Samba e Prosa, dizem. Se beber, não desenhe.

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