O brasileiro que fotografou Picasso, Dalí, Warhol, Kurosawa, Chagall…

A família de Eddy Novarro, fotógrafo morto em 2003, prepara para 2018 uma retrospectiva que dará ao público acesso a um imenso acervo fotográfico com imagens de alguns dos maiores artistas, escritores, músicos, cineastas, arquitetos e personalidades do século 20.

A exposição marcará os 60 anos do encontro de Novarro com Pablo Picasso, o pintor que se tornou espécie de padrinho do jovem que o impressionou com seu conhecimento de artes.

Nascido na Romênia, Novarro veio ao país como refugiado da Segunda Guerra Mundial e se naturalizou brasileiro. Seguindo conselho do amigo Oscar Niemeyer —que certa vez lhe disse: “Vai nos olhos, Eddy, que a verdade está ali”—, passou a fazer retratos de seus amigos e de outros artistas da época.

É dele a premiada foto de 1957 na qual o pintor Cândido Portinari segura uma xícara de café com a mão direita enluvada —acessório que passou a usar para se proteger de intoxicação pelas tintas que o matariam.

No ano seguinte, o arquiteto Sérgio Bernardes levou Novarro para trabalhar com ele na Feira de Bruxelas. Ali, o fotógrafo ganha o mundo ao conhecer René Magritte e o famoso toureiro Luiz Dominguin, que o apresentaram a Picasso.

Com a bênção do pintor espanhol, Novarro teve passe livre para fotografar artistas como Miró, Dalí, Chagall, De Chirico, Magritte, Botero, Rivera, Kokoschka, Marcel Duchamp e muitos outros, incluindo o time de autores de cinco das sete obras de arte mais caras da história: Picasso, Giacometti, Andy Warhol, Francis Bacon e De Kooning.

No portfólio do fotógrafo estão também ícones mundiais de outras áreas, como o papa Paulo 6º, Dalai Lama, Albert Sabin, Akira Kurosawa, Miles Davis, André Malraux, Tennessee Williams, Juan Perón, Daniel Cohn-Bendit, Eugene Ionesco, Golda Meir, Konrad Adenauer, Ben Gurion e Anwar Sadat.

As fotografias de Novarro registram, ainda, gigantes brasileiros: Niemeyer, Ivo Pitanguy, Burle Marx, Di Cavalcanti, Tomie Ohtake, Volpi, Jorge Amado, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Fernando Henrique Cardoso, Juscelino Kubitschek e tantos outros.

Meu fascínio por Novarro só não é maior que minha decepção por jamais ter conversado com ele. Nunca me arrependerei o suficiente por não ter percebido quem ele era.

Conheci Novarro —ou melhor, poderia tê-lo conhecido– na Igreja Ortodoxa Russa de Santa Zenaide, no Rio de Janeiro, onde trocávamos simples cumprimentos formais. Naquela paróquia da colônia russa (e de todas as etnias do leste da Europa), pouco se falava português, o que me causava certa inibição, já que não falo russo.

Ali, me acostumei a avistar aos domingos, quando acompanhava minha mulher à missa, aquele distinto cavalheiro que devia ter uns 70 anos. De porte ereto e gestos contidos, costumava caminhar calmamente até o altar, onde acendia uma vela.

Vestia-se com apuro, sempre com um elegante foulard de seda em volta do pescoço, e tinha os cabelos tingidos de um preto radical. Ao lado de sua família —a mulher bem mais nova e o pequeno filho do casal, que me parecia uma perfeita miniatura do pai—, permanecia de pé até o fim da liturgia, como de costume na ortodoxia russa.

Sempre tive a impressão de se tratar de um comerciante bem-sucedido e, não sei bem por que, armênio.

A revelação de sua identidade só viria anos depois de sua morte, quando minha mulher e sua viúva se aproximaram. Em um chá na casa dela, descobrimos então quem tinha sido o seu marido. Fiquei em choque com os livros de fotos e catálogos de exposições em vários idiomas, o acervo arrebatador que revelava a vida de aventura de Eddy Novarro.

Minha primeira sensação foi a de qualquer mortal diante de um tesouro: fascínio e deslumbramento atônito. A segunda, de amarga estupidez, por não ter jamais conversado com aquele ser especial com quem esbarrei tantas vezes.

A terceira sensação me é recorrente até hoje: o desperdício de não ter feito com Novarro a matéria culminante da minha pobre carreira, se ele me revelasse o que ficou de sua trajetória fulgurante.

NILO DANTE, 83, trabalhou em dez jornais (dos quais dirigiu cinco) e quatro revistas do Rio. Foi correspondente de jornais brasileiros nos Estados Unidos, Inglaterra e Argentina. É autor do romance “O Sócio Oculto” (Midia In). Folha de São Paulo

 

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo “Se não for divertido, não tem graça.” Contato: luizsolda@uol.com.br

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