O encontro entre Polaco e Pé Vermelho

minhas_lembrancas_de_leminski1Sob o título de Minhas Lembranças de Paulo Leminski, o escritor londrinense Domingos Pellegrini publica, enfim, seu livro polêmico, que mistura memórias e ficção, sobre o poeta curitibano.

Em meados de outubro do ano passado, o escritor londrinense Domingos Pellegrini, de 64 anos, acrescentou um capítulo significativo à já bastante polêmica discussão sobre as biografias não autorizadas. Nas primeiras horas da manhã do dia 15, ele enviou a muitos de seus contatos no mundo literário e jornalístico os originais de seu livro, então intitulado Passeando por Paulo Leminski, obra que, à época, não havia conseguido publicar, pela editora Record, por não ter obtido a autorização das herdeiras do poeta curitibano, que morreu em 1989, aos 44 anos.

Passados seis meses desde então, a obra, agora com o título de Minhas Lembranças de Leminski, chega às livrarias, pela Geração Editorial. “Como a editora Record, que estava para publicar o livro, não quis fazê-lo antes de o Congresso ou o Supremo baixarem nova legislação sobre o assunto biografias [leia texto nesta página], consultei a Geração, onde tenho vários livros infantis e um de crônicas, e eles toparam publicar antes mesmo da nova legislação, por entender que o livro, seja ou não embargado pelas herdeiras, se tornará um marco civilizatório. O Brasil não pode continuar a ser o único país do mundo onde pessoas públicas só podem ser vistas como o biografado ou os herdeiros querem”, disse Pellegrini ontem à reportagem da Gazeta do Povo, na qual assina coluna quinzenal no Caderno G.

Herdeiras se manifestam sobre livros

Procuradas pela reportagem da Gazeta do Povo, a viúva de Paulo Leminski, Alice Ruiz, e suas filhas, Aurea Leminski e Estrela Ruiz Leminski, divulgaram a seguinte carta:

“Apesar de ambos os autores, Domingos Pellegrini e Toninho Vaz, estarem se utilizando da polêmica das biografias para conseguirem destaque e repercussão para si, para suas causas e livros, a única questão é que não autorizamos o uso de textos do Paulo Leminski em nenhuma dessas duas obras, o que provocou a desistência da publicação na época por parte das editoras.

No caso de O Bandido Que Sabia Latim, havia um livro dentro de outro livro (54 poemas), sendo que nunca houve autorização para tal, tampouco solicitação por parte dos autores para utilização de obra que não lhes pertence.

No caso de Pellegrini, seu livro não é uma biografia, sendo que há, inclusive, trechos que o autor assumidamente supõe o que o Paulo diria, o que o aproxima de ficção e por isso é fundamental que esse livro não seja apresentado erroneamente como uma biografia.

O autor é letrado e tenho a certeza de que leu e entendeu que ‘não autorizaríamos os textos do Paulo’. Do Paulo, e não sobre ele.

Reiteramos que a não autorização dos textos autorais de Paulo Leminski foi colocada a público na nossa carta de esclarecimento através da imprensa.

Alice, Aurea e Estrela

O texto do livro não tem diferenças fundamentais em relação à obra divulgada por Pellegrini no ano passado, embora tenha sido revisado e ampliado em alguns trechos. O escritor adicionou um capítulo extra, intitulado “Posts”, sobre a repercussão que os originais de Passeando por Paulo Leminski tiveram quando de sua veiculação ano passado pela rede. As imagens são do acervo dos fotógrafos Orlando Azevedo e Vilma Slomp, que tiveram convívio próximo com Leminski.

Primeira pessoa

A estrutura de Minhas Lembranças de Leminski permanece a mesma. Não se trata, é preciso dizer, de uma biografia. A obra aborda o reencontro, no plano ficcional, entre amigos de longa data. Há duas vozes, a de Leminski (que recebe o apelido de Polaco), e sempre grafada em itálico, e a de Pellegrini, que se autonomeia de Pé Vermelho.

Não há citações diretas a falas do poeta curitibano, cuja forma de falar é recriada por Pellegrini a partir do uso de neologismos e jogos de palavras, na busca por uma dicção leminskiana.

O londrinense conta que, na primeira semana em que começou a escrever, o amigo teria lhe aparecido em um sonho e perguntado: “Você não vai escrever uma biografia convencional de mim, vai?”.

“Eu já pensava que não caberia uma nova biografia, pois a escrita por Toninho Vaz, O Bandido Que Sabia Latim [cuja reedição foi impedida pelas herdeiras de Leminski], é consistente na pesquisa, honesta e humana na visão. Para uma nova abordagem, eu teria de encontrar novas fontes, entrevistar muita gente em várias cidades, certamente para obter poucas informações inéditas e talvez casos e historietas o envolvendo. Então resolvi me limitar às minhas lembranças dele, também comentando sua obra, ajuntando observações de clínica médica, sociologia, antropologia, enfim, um caldeirão de lembranças e visões críticas e humanas desse sujeito extraordinário que é Paulo Leminski”, disse.

Quanto a dar voz ao poeta, no plano da ficção, Pellegrini defende a sua escolha, afirmando que teve com Leminski convívio e intimidade suficientes para isso. “Eu o conheci tanto que sei o que ele diria sobre a própria morte, a mestiçagem, o alcoolismo e outros assuntos, com o desassombro, o humor e a agudeza com que ele tratava tudo.”

Polêmica

Pellegrini diz que Minhas Lembranças de Leminski só foi escrito graças à viúva do escritor, a poeta Alice Ruiz, e suas filhas, a jornalista Aurea Leminski e a compositora, poeta e cantora Estrela, que o convidaram para escrever uma biografia – o livro é dedicado a elas e a Samuel Ferrari Lago [da Editora Positivo], “pela motivação”. As herdeiras estavam desgostosas com o livro de Toninho Vaz, e queriam uma nova biografia.

“Enviei os dois primeiros capítulos para análise delas, que passaram dois meses sem dar qualquer resposta, tempo em que terminei o livro, que escrevi intensamente. Então enviei e-mail, com todo o texto, dizendo que ou autorizavam ou eu ia colocar na internet, aí Alice respondeu no dia seguinte, colocando restrições que achei descabidas. Desconfio que queriam uma biografia chapa-branca, e os capítulos que enviei não indicavam isso, então preferiram não me responder, o que considerei desrespeito”, contou.

Alcoolismo

À época da divulgação da primeira versão do livro, Alice Ruiz manifestou seu descontentamento à exagerada ênfase dada ao alcoolismo do poeta, que terminaria por matá-lo. “Como disse Belmiro Valverde Castor Jobim em artigo na Gazeta do Povo, o alcoolismo e Leminski é um ‘segredo de polichinelo’, que todos conhecem. Enfatizei isso porque não seria verdadeiro nem omitir nem amenizar. Afinal, escrever e beber foi o que ele mais fez na vida, unindo as duas coisas numa celebração martírica própria da geração beat. Ele pagou seu preço, com a própria vida, porém sem jamais fazer disso uma bandeira, ao contrário, sem reclamar nem lamentar, um verdadeiro estoico, como também era um verdadeiro anarquista, duas das facetas analisadas no livro.”

PL das biografias deveria ter sido votado ontem

O Globo

Após três anos em tramitação, o polêmico projeto de lei que autoriza a publicação de biografias de personalidades públicas sem autorização do biografado ou seus herdeiros deveria ter sido ser votado ontem na Câmara dos Deputados. O PL 393/2011, do deputado Newton Lima (PT-SP), teve sua tramitação em regime de urgência aprovada na semana passada e estava na pauta de votação desta terça-feira do plenário, encerrada após o fechamento desta edição.

Depois de causar controvérsia entre deputados pró e contra a liberação das biografias, a expectativa era de que o projeto atingisse a maioria de votos necessários para seguir para o Senado.

A negociação entre os líderes de bancada para que o PL das Biografias fosse votado com urgência resultou em uma emenda ao projeto original, de autoria do deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), que agora prevê o uso de juizados especiais em processos de calúnia e difamação envolvendo biografias, o que garantiria punição mais rápida nesses casos. A emenda foi uma tentativa de se chegar a um consenso entre os parlamentares, mas ainda assim há deputados que se opõem à liberação das biografias não autorizadas.

Roberto Custódio/Gazeta do Povo

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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