O irritante guru do Méier

A grandeza de um artista pode ser medida pelo respeito da nova geração, principalmente dos novos que também atuam na sua área. O… (como vou definir alguém que foi tanta coisa?) bem, o Millôr Fernandes, que morreu hoje aos 88 anos no Rio de Janeiro, sempre esteve num patamar acima no humor brasileiro e penso também que no jornalismo.

O Millôr fazia de tudo: escrevia, desenhava, era artista plástico dos bons, foi poeta, escritor e editor de alta qualidade. Foi um dos principais criadores do jornal O Pasquim e também fez uma publicação na década de 70 menos conhecida, o “Pif-Paf’, de impressionante qualidade editorial e gráfica. Durou poucos números, afinal estavamos numa ditadura e o Brasil já era o que sempre foi. Muito atrasado, apesar dos tantos talentos que pelejam para fazer algo de bom, além dos gênios, como o Millôr.

Ele teve uma especial participação na modernização da imprensa brasileira, o que foi importante para a modernização de todo o conjunto da nossa mídia e até mesmo da arte brasileira. Com seus desenhos e o excelente texto foi um dos jornalistas que tiraram a casaca da linguagem do nosso jornalismo, mudando o comportamento dos brasileiros.

O respeito por ele foi sempre muito grande entre seus pares, nos quais estou incluido. E era tamanho esse respeito que, na década de 70, havia uma história entre os cartunistas mais novos que mostra isso de forma divertida. Naquela época estávamos sempre na redação da Folha de S. Paulo, onde faziamos vários trabalhos. Eram cartuns e ilustrações, capas e a página de humor do suplemento semanal “Folhetim”, um sucesso editado pelo Tarso de Castro, que saía encartado na Folha.

Daquela turma de desenhistas que ficavam num estúdio ao lado da redação do jornal participavam eu, Glauco, Angeli, o falecido Petchó, Luiz Gê, o Luiz Carneiro estava sempre por ali também, a ilustradora Mariza, além de outros desenhistas que de vez em quando faziam alguma colaboração na Folha.

É claro que estávamos sempre falando sobre os cartunistas da velha guarda, que eram o Ziraldo, Jaguar, Henfil, Fortuna, Claudius. E o Millôr. Também é evidente que sempre aparecia no meio da conversa uma crítica a um ou outro desses cartunistas mais experientes. Pois uma vez alguém falou alguma coisa mais pesada sobre o Millôre e eu de pronto protestei bem alto; “Espera aí, o Millôr, nâo!”. E todos caímos na gargalhada.

Aquilo ficou entre nós como um jargão. Sempre que sobrava alguma crítica ao Millôr, alguém alertava: “O Millôr, não!”. Era meio de brincadeira, mas havia naquilo uma expressão de respeito por um artista que se elevava acima de todos pela imensa criatividade.

José Pires

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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