O politicamente correto é o novo SNI

Ando padecendo de um mal dos tempos. Outro dia fui ao supermercado comprar um refri. Perdi quase meia-hora em frente à gôndola analisando minhas opções: Pepsi Citrus, Pepsi Light, Pepsi Zero, Pepsi descafeinada, Pepsi sabor Coca-Cola, Pepsi com leve toque de bacon, Pepsi Noodles… Santa Clara e Santa Gema nos acudam!

É tanta escolha de um mesmo produto que sabe o que eu fiz? Isso mesmo, coloquei o rabinho peludo entre as pernas e fui embora sem comprar necas. Era tanta escolha que eu não consegui fazer a minha. Deu “overload” e travou o sistema.

Ainda por cima nesta profissão danada de matraquear… Neste ofício de apresentar ideias, de ter de convencer sobre qual o galo “bão” e o galo ruim… Olha, vou te contar.Ainda mais hoje. Antigamente você dizia uma coisa, o leitor muito educadamente agradecia ou mandava você a merda, concordava ou não e depois deixava você estar para ir cuidar de seus afazeres: comprar ficha de orelhão, jogar Atari, o que fosse.

Hoje, não. Camarada vem com um argumento cretino, depois volta com outro e mais outro, todo mundo tem uma opinião definitiva para dar. E você nunca mais terá paz, a não ser que seu computador seja engolido por um cão mastim gigante, com seu tablet, seu laptop e seu smartphone. Note que meu vizinho tem um gato, o que torna a hipótese ainda mais remota.

A turma quer prevalecer de qualquer jeito. Assuntos que se prestem a opiniões polêmicas não faltam. E o pessoal não se contenta mais com questões éticas que não tenham soluções fáceis, em que a coletividade é forçada, em nome do bem comum, a escolher a menos ruim das hipóteses.

De forma alguma. Hoje, não ficam nem acanhados ao proferir mísseis como: “Olha só, eu não concordo com Platão” ou “Nesse aspecto, eu acho que Sócrates deu mancada”.

Nestes tempos pródigos em democratizar o ponto de vista, a turma se põe em pé de igualdade com os pensadores e sente-se à vontade para desancar Descartes, dar beijinho no ombro de Aristóteles e mandar Thoreau procurar as negas dele no mato.

Isso não é culpa do Mark Zuckerberg. É que há muita opinião esperando para ser dada. Confirma comigo se você é contra ou a favor: 1) do “rolezinho” (se eu soubesse o que é, seria bem mais fácil opinar, né não?); 2) da lei de cotas; 3) da lei que transforma homofobia em crime; 4) da nova lei do Ecad (entidade que administra direitos autorais no país); 5) da lei da palmada -e ainda de uma série de outras questões. A favor ou contra o Dirceu trabalhar fora do presídio, ou contra ou a favor da Copa. Se bem que, essa última, que só foi lançada como questionamento de um ano para cá, eu só aceitarei como “dúvida existencial” quando me explicarem como se pratica a militância contra ou a favor de dias chuvosos.

Muito bem. Já descobrimos que todos buscamos posições categóricas para chamar de nossas.

Não se trata de tentar entender. O que quero saber, galera, é onde buscar a opinião que me posicione do lado certo. Eu só quero estar certo, não é isso?

Mas, como vou achar respostas se não tenho repertório nem capacidade de raciocínio? Ora, é para isso que surgiu o próspero mercado de palestras. Quer coisa mais prática do que sentar e ouvir?

Nesta semana fui ouvir um “especialista”, coisa fina, entrada caríssima. Ele discorria sobre a precificação daquilo que não deveria ser medido em dinheiro, quando me dei conta de que tudo o que ele falava constava do seu livro, lançado no Brasil. Ou seja, ali, diante de mim, estava um produto, não um professor dando uma aula.

Deu vontade de dizer à mulher ao meu lado que tomava anotações. “Perca seu tempo, não. Está tudo no livro que você compra no saguão…”

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Barbara Gancia – Folha de São Paulo|30/05/2014

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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