O que é que os outros vão dizer?

outro-o-ex-tado

Retícula sobre foto de João Urban (1980)

Cresci à sombra dessa frase-ameaça, símbolo / síntese/ totem da nossa (curitibana) pudicícia, timidez, excesso de respeito pela opinião alheia. Os outros são uma loucura. Tem um que. Tem um outro. Tem um que outro. E tem cada outro que vou te contar. Outro é o tipo de negócio que nunca falta. Para cada um que sim, tem um outro que não. E talvez um outro.

A opinião dos outros já me tirou o apetite. Um outro não me deixou dormir. Teve certas camisas que nunca usei por causa dos outros. Outro caso são as outras. A outra. Eu sou a outra na vida dele. O fato é que não se pode viver sem essa estranha companhia: os outros. Quem são os outros? Metafísica pergunta que Universidade alguma responde.

Não é qualquer um que é o outro. Basta um pouco de intimidade, ela se vai o outro, transformado em íntimo, a pior modalidade de outro que se pode imaginar. Nos anos 60, a intelectualidade curitibana era toda sartreana. Até os marxistas eram, secretamente, acendendo, em público, uma vela a Marx e, em casa, no recesso do lar, um círio (Jamil Snege acendia um sírio) ao casal Sartre- Simone.

O que mais fazer numa cidade sem portas, nem janelas? Extrapolo. Tudo o que eu queria dizer é que, com Sartre, aprendemos a escrever outro com maiúscula. O Outro. Aí o caso é mais sério. O outro, virando o Outro, transformava-se numa espécie de monstro da família de Drácula, Nosferatu, Frankenstein, Monstro da Lagoa Negra, Fuscão Preto, INPS, Abominável Homem das Neves. Aprendemos, ainda, a outridade, o outrimento, tudo modalidades de manifestações desse prestigioso portento.

Alguns exageraram nessa paixão pelo outro. Um dia, acordaram, foram ao espelho. E lá estava o Outro refletido no reflexivo vidro do banheiro. E fizeram a barba do Outro mesmo. Hoje os tempos são outros. Outros os hábitos, outras as preocupações. Mas, vez por outra, ainda me lembro daquele monstro com o carinho com que lembramos das visagens e assombrações da infância. E só. Hoje, pra mim, o outro entra por um ouvido. E sai por outro.

Paulo Leminski. Fim de Semana – suplemento de O Ex-tado do Paraná – edição de 12 de novembro de 1982

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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