O saco do zebu

Finalzinho da ditadura militar, a censura não conseguia sufocar os boatos sobre a saúde do último general presidente: João Batista Figueiredo sofrera infarto, que aliado ao histórico de hipertensão, problemas de coluna e até a conjuntivite crônica punham em risco a estabilidade do regime. O image maker produziu a famosa foto de Figueiredo, sunga e tênis, deitado simulando exercício abdominal. Nesse dia tia Lili chegou às gargalhadas do Salão Marly – nessa época um só, dona Marly lavava, secava, cortava e penteava os cabelos e até varria o chão. Mulher quando se junta sai coisa cabeluda. Não deu outra, o comentário: “o cara tem saco de zebu”. Zebu é gado de corte; saco é a bolsa escrotal, imensa no bicho. E no general.

O image maker voltou a trabalhar no imbróglio da Carne Fraca. Não é um dos coronéis de comunicação da ditadura, mas coisa parecida – desta vez o diretor geral da Polícia Federal, Leandro Daiello, que sugeriu o churrasco do presidente Michel Temer com ministros, empresários da carne, embaixadores de países importadores, políticos. Não me surpreenderia se entre eles estivessem pagadores e recebedores de propina dos frigoríficos. No Brasil só falta as freiras instalarem bordéis nos conventos. O princípio, no entanto, é o mesmo. Nos casos de Figueiredo e Temer está a velha questão do simbólico, a imagem criando o anticlima, desfazendo o impacto de fato ou imagem anterior.

Problema, um só, o simbólico de Temer, sempre canhestro e capenga. A começar pela “liturgia do cargo”, ele e todos os demais de terno e gravata na churrascaria. Pingos e respingos do rodízio (sequência, em S. Catarina) a manchar ternos e gravatas Hermès, a preferida dos arrivistas de Brasília; eflúvios e emanações da carne, que não é fraca, a conspurcar as fatiotas da nomenclatura – tudo bem, a verba indenizatória paga a lavanderia, todas elas. Que dizer da churrascaria? A Steak Bull, que serve carnes da Argentina, Chile, Uruguai, até Austrália. No ágape de Temer a picanha era brasileira, um dos frigoríficos investigados o fornecedor. Embutido, nenhum. O papel da turma ali era outro.

Rogério Distéfano

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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