O sujeito oculto

© Glória Flüggel

O diretor e autor de teatro, escritor, jornalista e publicitário Manoel Carlos Karam, que morreu de câncer em Curitiba, aos 60 anos, era uma daquelas figuras de quem a gente ouve falar todas as semanas mas só encontra pessoalmente em anos bissextos. E olha que oportunidades para se ver não faltavam, Tínhamos sido apresentados trinta e tantos anos atrás, freqüentávamos os mesmos círculos, conhecíamos as mesmas pessoas. Mas um traço comum de personalidade nos aproximava e distanciava: a completa aversão a badalações.

Um criador radical, independente, quase alternativo, nascido em Rio do Sul, Santa Catarina, escreveu vinte peças e publicou sete romances. “Cebola”, um deles, valeu-lhe o Prêmio Cruz e Souza de Literatura em 1995. Tinha tocado em seus textos, a alma do curitibano – um feito de poucos. Mas por causa dessa dificuldade em fazer o jogo, revelada numa autêntica repulsa ao marketing pessoal, passava batido, era quase desconhecido do grande público, à margem do sistema midiático e industrial. Era, como no titulo de uma de suas novelas, o próprio sujeito oculto.

Na última vez que nos vimos, outubro de 2006, numa livraria de shopping, eu trabalhava na propaganda política de Roberto Requião para o governo do Paraná. A disputa estava mascada, difícil, o resultado tornara-se imprevisível. Karam acertou na mosca: “Vai ser por pouco, pouquíssimo, mas vocês vão ganhar”. Nao deu outra. Lembrei-me então de setembro de 2001. Bin Laden acabara de implodir o WTC com seus aviões assassinos.

Já no dia seguinte, ao cruzarmos, Karam tinha pronta outra de suas antevisões: “Esse atentado reelege Bush. Pior: milhares de iraquianos, na falta de melhores culpados, vão pagar com suas vidas”. Ele tinha, com seu poder de síntese a capacidade de simplificar tudo. Como um mago, antecipava o futuro. Para ele não era nada demais, Karam, dava para ver no que escrevia, descobrira a essência da espécie humana – o que deve tornar o mundo muito previsível.

Almir Feijó – 30 de dezembro|2007

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido, não tem graça." Contato: luizsolda@uol.com.br
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