Ópera de arame farpado

Arquitetos e urbanistas que fizeram intervenções em Curitiba, jamais poderiam imaginar que a paisagem histórica hibernada – seu casario tombado – ficasse sob ameaça clara e contundente de transformar-se, lenta e progressivamente, num cracódromo; e a sua Ópera de Arame numa casamata institucional de um legislativo distanciado do povo. Já por duas vezes – uma substituindo a Câmara Municipal e outra, mais recente, o Legislativo estadual – operou como um refúgio para isolar-se das pressões populares em torno da reforma previdenciária.

Nos dois casos alegava-se que a presença de manifestantes impedia o livre curso das deliberações, já que sindicalistas haviam invadido suas instalações e praticado depredações. O fato é que não houve aquele mínimo de abertura para debates com as corporações interessadas e tudo permaneceu como se vivêssemos numa ordem tecnocrática.

E havia muita coisa a discutir, como a alteração previdenciária de 2015 que redundou num massacre em pleno Centro Cívico que feriu mais de duzentas pessoas e se consumou numa perda anual de R$ 2 bi do capital da Paranaprevidência, para desafogar dispêndios do Tesouro estadual com servidores aposentados, algo que mexia com o horizonte atuarial do fundo de pensão. Houve agora, justamente por parte do líder oposicionista, Tadeu Veneri, esse enfoque sobre a questão atuarial.

A pressa em mostrar serviço ao governo central com a aprovação da matéria ainda este ano, mostrou que atos institucionais nada têm de incomuns em nossas práticas, ainda que o funcionalismo do Executivo, que não tem reajustes há três anos, perca mais 3% com o aumento da contribuição previdenciária de 11% para 14%.

Emerge disso tudo, como um símbolo forte de estranha democracia sem povo, essa metamorfose da Ópera de Arame, agora devidamente farpado e com saturante cerco de policiais militares para impedir a presença incômoda de pessoas interessadas no debate da matéria. Tudo como na operação de guerra de quatro anos passados, para evidenciar que atos institucionais tem variações surpreendentes, inclusive, com a presença dos legisladores, o que não lhe retira o traço forte do autoritarismo expresso no arame farpado, próprio das guerras de trincheiras.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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