Os choques de Janaina Paschoal com o Jair Bolsonaro de sempre

Janaina Paschoal está chocada com Jair Bolsonaro. A deputada estadual paulista deu uma entrevista para o UOL com várias considerações sobre a conjuntura nacional. Ela teve um “choque” com a decisão de Bolsonaro de nomear o filho como embaixador nos Estados Unidos e se incomoda também com os maus modos do presidente no geral e na forma de conduzir o governo.

Uma explicação dela sobre o teor desse choque: “Quando o presidente faz suas críticas, ele tem razão. O problema é o tom que usa. Ele perde a paciência e escracha. Até as pessoas que concordariam com ele ficam chocadas”. E sobre a indicação do filho, ela diz que está “chocada que no início do governo o presidente esteja fazendo isso”.

É interessante como uma pessoa que já tem idade para ter uma certa experiência de vida não percebe que está se desqualificando quando revela surpresa sobre certas coisas que nunca estiveram encobertas. Bolsonaro sempre foi um espertalhão da política, onde encontrou um meio de ganhar dinheiro sem muito esforço depois de tentar fazer a mesma coisa no Exército Brasileiro e se dar mal. São histórias antigas e por isso só se espanta com Bolsonaro quem antes de abraçar sua candidatura não prestou atenção ao que ele sempre foi.

Choque mesmo foi quando Janaina fez a opção não só pelo apoio a Bolsonaro como também se engajou em sua campanha como candidata de um partido montado às pressas para aproveitar a onda de direita que surgiu na política brasileira. Mas neste caso nossa surpresa se justifica. Foi um erro político crasso seu envolvimento com um político adversário do governo que caiu exatamente em razão de um movimento social no qual ela teve um papel importante, no aspecto político e jurídico.

Mas é o choque de Janaina que está em pauta. Sendo professora da área de direito, sem dúvida ela deve saber que uma decisão sobre qualquer questão tem que ser apoiada no estudo sério de seus antecedentes. Bolsonaro jamais escondeu seus defeitos graves de temperamento. Pelo jeito, ele até se orgulha disso. Sua visão sobre os outros é até desumana na sua forma de expressão, mas tampouco dessa grosseria ele fez segredo.

Seus maus modos e sua crueldade foram expostos em uma variedade de vídeos, à disposição na internet muito antes dele adquirir força política como presidenciável. O nepotismo também é uma marca importante da sua trajetória. Usando uma expressão dele próprio, faz tempo que separa o melhor filé mignon para seus filhões. E como nunca foi liberal, não se preocupa que o almoço grátis em família fique na conta do contribuinte. Se não dava ainda para saber de tudo o que Bolsonaro fazia para o favorecimento de sua família, eram bem visíveis as condições da eleição de cada filho, todos eleitos a partir de sua base política populista e de cunho corporativista.

Cabe acrescentar nessa lamentável história política de nepotismo — cujo acesso era fácil em uma rápida pesquisa na internet, antes de Bolsonaro sair das sombras do baixo clero — que os três filhos de seu candidato nunca apresentaram mérito algum como parlamentares, o que serviria inclusive para avaliar critérios políticos e administrativos antes de se engajar numa fanática campanha. Por essas razões, a confissão do choque com seu presidente na verdade rebaixa a capacidade da deputada porque revela dificuldade de fazer juízo de valor, o que pode ser fatal na política.

Eu diria que nesta situação dramática de desencanto pode caber uma frase do grande Luigi Pirandello — por sinal um direitista — em que ele diz simplesmente “assim é, se lhe parece”. É o título de uma conhecida peça teatral. A aparente dubiedade se encaixa não só nesta visão de Janaina Paschoal como na de tantos bolsonaristas, agora sob o impacto da consequência de suas ansiedades políticas. Esta realidade que os pega desprevenidos não sofreu nenhuma mudança abrupta de enredo. O choque se deve a uma desatenção anterior muito grave, descuido mantido no decorrer do processo, na gradativa troca de posição, da comodidade da plateia para a atribulação do palco, onde já se antevê o sentido trágico daquilo que antes parecia até engraçado.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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