Padrelladas

Diário da Pandemia

Ficou acertado que o momento do grito seria sempre no mesmo horário. A dúvida era se também os condôminos em atraso poderiam ser incluídos na nova lei. Positivo. E o que é o momento do grito? Explico. Percebemos que nos momentos de maior desespero sempre um grito corta a quietude da tarde, ou da noite ou da manhã. Isso cria um estado de suspense porque nunca se sabe a que momento um uivo de lamento pode irromper de algum dos apartamentos. Agora, com o estabelecimento do acordo, ficou acertado o dia 12 de cada mês, às 10 horas da noite para a execução do Grande Grito, sem prejuízo de gritos esparsos, de menor potência sem dia e horário pré-determinado.

Ouvi com toda a clareza um galo saudar a tênue luz da manhã. Seu cocorico, límpido como Maria Callas cantando a ária O mio bambino caro me deixou curioso: como é que permitem animais no condomínio! O lance passou batido, até que nesta manhã ouço com toda a clareza um burrichó asnar em alto e bom som. Longe, possivelmente no último apartamento, saiu um som muito parecido com um relincho de cavalo. Antes que eu saísse do banho, o rapaz que usa o ofurô me perguntou o que é que eu tinha achado. Como não estava procurando nada respondi que não tinha achado. Mas ele, doce como militar reformado, explicou que de agora em diante seria assim. Cada condômino libertaria o animal que trazemos oculto, e assim poríamos um pouco de vida em nosso exílio.

E não me ouviram. Eu disse “bota a ema”. Botaram a ema? Não, não botaram a ema. Falei: “Então bota o cachorro caramelo”. Botaram o dog? Não, não botaram. Botaram foi outro cachorro, aliás todo despenteado, andando como se estivesse chapado, bonito exemplo para nossas crianças! Depois se queixam que essa juventude não tem jeito. Botar um cachorro drogadito no dinheiro é a mesma coisa que oferecer crack pras crianças e dizer que é bombom de croroquinhas. FATOS QUE NÃO SE PODE PROVAR – A Proclamação da República deu-se assim: O imperador trucou com o espadilha, Deodoro tinha o gato na mão. O gato, no caso, era um importante empresário que sempre dava as cartas.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 40 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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